A Lido iniciou a migração de mais de 8 milhões de ETH em staking para o Curated Module v2, em uma mudança estimada em US$ 16,5 bilhões. A atualização cria exigência de bond em ETH para operadores profissionais e deve reduzir em cerca de um terço o número de validadores ligados ao módulo.
A Lido começou a migrar mais de 8 milhões de ETH em staking para uma nova arquitetura de validadores, em uma atualização que coloca cerca de US$ 16,5 bilhões sob o Curated Module v2. A mudança é relevante porque altera a forma como operadores profissionais respondem por desempenho, riscos de slashing e atrasos na saída de validadores.
Segundo o CoinDesk, todos os 34 operadores atuais do módulo curado devem migrar para o novo modelo. Na prática, a Lido passa a exigir que esses operadores mantenham garantias travadas em ETH, stETH ou wstETH, dando uma camada econômica a um sistema que antes dependia mais de reputação, histórico técnico e governança.
O que muda no Curated Module v2
O Curated Module é a parte permissionada da Lido que reúne operadores profissionais de nós. No portal oficial de operadores, a Lido descreve o CMv2 como sucessor do módulo atual, com requisitos de bond, classificação formal de operadores e processos de governança mais padronizados.
A primeira fase está prevista para o terceiro trimestre de 2026 e inclui três pontos centrais: tipos de operadores, bonds e consolidação dos validadores do módulo antigo. A segunda fase, planejada para o quarto trimestre, deve adicionar depósitos diretos e um modelo de alocação chamado ValMart, que considera custo, penalidades, descentralização, riscos e participação na governança.
A atualização também dialoga com mudanças técnicas recentes do Ethereum. O CMv2 foi desenhado para validadores 0x02 e para suportar saldos efetivos maiores, em linha com o EIP-7251. Isso permite consolidar validadores e diminuir a quantidade de mensagens de validação, o que pode aliviar parte da carga operacional da rede.
Bond muda incentivo dos operadores
O ponto mais sensível da atualização é a exigência de collateral. Pela proposta documentada pela Lido, a maior parte dos tipos de operadores tem bond inicial de 11 ETH para a primeira chave, 0,1 ETH para as 17 chaves seguintes e 0,7 ETH por chave adicional. Operadores profissionais usam uma curva mais conservadora, com 11 ETH na primeira chave e 1 ETH em cada chave adicional.
Esse bond pode ser usado para cobrir perdas causadas por falhas do operador, como slashing, mau direcionamento de recompensas da camada de execução, atrasos em saídas solicitadas ou problemas operacionais graves. A lógica é simples: quem opera infraestrutura crítica para stakers passa a ter dinheiro próprio em risco.
Para usuários comuns de staking líquido, a Lido afirma que o fluxo de recompensas permanece centrado nos stakers: 90% das recompensas líquidas continuam indo para rebases de stETH, enquanto a taxa de 10% do protocolo remunera operadores e a tesouraria da DAO. A diferença está mais na estrutura de responsabilidade dos operadores do que no produto visível para quem mantém stETH.
Por que isso importa para Ethereum e DeFi
A Lido é uma das peças mais importantes do staking líquido no Ethereum, e qualquer ajuste em sua arquitetura afeta a discussão sobre concentração de validadores, segurança e governança. O CriptoBR já mostrou que o staking de Ethereum virou pauta institucional, mas o desenho de incentivos dos validadores segue sendo um tema central para a saúde da rede.
O histórico da própria Lido reforça essa preocupação. Em 2024, o protocolo atingiu 1 milhão de validadores, ampliando seu peso no DeFi e reacendendo debates sobre descentralização. Antes disso, bancos como o JPMorgan já haviam apontado que a ascensão do staking de Ethereum trouxe custos de centralização.
Com o CMv2, a Lido tenta responder parte dessas críticas sem abandonar o modelo de operadores curados. Bonds, penalidades e pesos de alocação criam mecanismos para diferenciar operadores mais confiáveis, punir falhas e, no futuro, direcionar stake com base em mais variáveis do que apenas capacidade operacional.
O resultado ainda precisa ser observado em produção. A atualização pode tornar o módulo mais robusto, mas também eleva exigências de capital para operadores. Para a Ethereum, o ponto-chave será se a consolidação reduz carga na rede sem concentrar ainda mais poder em poucos participantes profissionais.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





