Robinhood estaria negociando com a Crypto.com para levar contratos de previsão ao seu aplicativo, segundo o Wall Street Journal. O movimento pode reduzir a dependência da corretora em relação à Kalshi e acelerar a disputa por infraestrutura regulada nesse mercado.
A Robinhood está em conversas com a Crypto.com para integrar contratos de previsão ao seu aplicativo, segundo reportagem do Wall Street Journal repercutida pelo The Block e pelo Investing.com. A negociação, se avançar, permitiria que clientes da corretora negociassem contratos de “sim ou não” oferecidos pela estrutura de derivativos da Crypto.com sem sair da plataforma da Robinhood.
O acordo ainda não está fechado. Mesmo assim, a conversa mostra como o mercado de previsão deixou de ser um produto de nicho e passou a disputar espaço dentro de corretoras, exchanges cripto e plataformas de varejo. Para a Robinhood, o ponto central é ampliar a oferta sem depender de um único fornecedor em um setor que combina derivativos, eventos esportivos, política, taxas de juros e produtos cripto.
Robinhood busca mais fornecedores além da Kalshi
Hoje, a Robinhood já oferece contratos de eventos por meio de parceiros como Kalshi, ForecastEx, da Interactive Brokers, e Rothera, uma exchange e câmara de compensação licenciada pela CFTC na qual a corretora investiu ao lado da Susquehanna International Group. A entrada da Crypto.com nessa lista reforçaria uma estratégia híbrida: usar infraestrutura própria ou afiliada em alguns mercados e, ao mesmo tempo, plugar venues externas para aumentar profundidade e variedade.
Segundo o The Block, a Robinhood começou recentemente a rotear contratos de Copa do Mundo e beisebol profissional para a Rothera. A empresa também afirmou que mais de 16 bilhões de contratos de eventos já foram negociados em sua plataforma em 2026, acima dos mais de 12 bilhões registrados em todo o ano anterior. Esse crescimento ajuda a explicar por que grandes plataformas estão tentando capturar mais da cadeia de valor, da distribuição ao clearing.
A possível parceria também cria atrito competitivo com a Kalshi. A plataforma segue como uma das líderes dos mercados de previsão nos Estados Unidos, mas a fatia de volume vinda de clientes da Robinhood teria diminuído após a entrada da Rothera. Como mostramos na cobertura sobre a CFTC apertando regras para mercados de previsão, esse segmento está crescendo junto com a pressão regulatória.
Crypto.com tenta transformar derivativos em canal de distribuição
Para a Crypto.com, a negociação seria mais uma forma de transformar sua infraestrutura regulada em produto distribuído por terceiros. A empresa lançou a OG, sua plataforma independente de mercados de previsão, em fevereiro, usando a Crypto.com Derivatives North America, registrada na CFTC como exchange e câmara de compensação.
O Investing.com relata que a Crypto.com já vinha expandindo esse braço desde o fim de 2024 e buscou acordos com marcas de consumo. Um exemplo é o Truth Predict, anunciado com a Trump Media para levar mercados de previsão ao Truth Social, embora o serviço ainda não tenha sido lançado. A empresa também tem buscado capital e parcerias para crescer no setor; em julho, o CriptoBR noticiou que a Crypto.com captou US$ 400 milhões com a Citadel Securities.
Essa disputa importa porque mercados de previsão funcionam como um ponto de encontro entre cripto, derivativos regulados e aplicativos financeiros de massa. Eles permitem negociar probabilidades sobre eventos específicos, mas também levantam questões sobre jogo, proteção ao consumidor, conflitos de interesse e limites entre regulação federal e estadual nos EUA.
Por que isso mexe com o setor cripto
A Robinhood vem ampliando sua presença em ativos digitais e produtos tokenizados. A empresa já lançou iniciativas próprias de blockchain e tem usado a marca para aproximar varejo tradicional de produtos que antes circulavam mais em exchanges especializadas. Em outro front, a Robinhood Chain registrou salto em ativos do mundo real tokenizados, sinalizando que a corretora quer ser mais do que apenas uma interface de compra e venda.
No mercado de previsão, a lógica é parecida. Quem controla a experiência do usuário, a liquidez e a infraestrutura regulada pode capturar taxas, dados de fluxo e relacionamento direto com investidores. É por isso que Kalshi, Crypto.com, Coinbase, Cboe, DraftKings e corretoras tradicionais aparecem cada vez mais no mesmo tabuleiro.
O outro lado é o risco regulatório. Nos Estados Unidos, a CFTC afirma ter jurisdição sobre contratos de eventos listados em venues registradas, enquanto reguladores estaduais e autoridades de jogos questionam parte desses produtos, especialmente quando envolvem esportes ou eleições. Esse embate ainda pode limitar a velocidade de expansão das plataformas, mesmo com a demanda crescendo.
Por ora, a leitura é pragmática: a Robinhood não parece abandonar a Kalshi, mas sim diversificar fornecedores e fortalecer sua própria capacidade de negociação de eventos. Se a Crypto.com entrar no aplicativo, o setor terá mais um sinal de que mercados de previsão estão virando uma nova frente de competição entre corretoras e exchanges cripto.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





