A Circle comprou da IBM um portfólio com mais de 680 famílias de patentes e quase 1.000 patentes blockchain emitidas no mundo. A empresa diz que o pacote reforça a infraestrutura por trás do USDC, da Circle Payments Network, da blockchain Arc e de ferramentas financeiras para agentes de IA.
A Circle, emissora do USDC, anunciou nesta segunda-feira (27) a aquisição de ativos fundamentais do portfólio de patentes blockchain da IBM. O pacote inclui mais de 680 famílias de patentes e quase 1.000 patentes emitidas globalmente, cobrindo blockchain, bancos, serviços financeiros, seguros, infraestrutura corporativa, verificação de cadeia de suprimentos e segurança em nuvem.
O movimento importa porque coloca a Circle em uma posição mais defensiva e estratégica na corrida por infraestrutura financeira on-chain. Segundo o comunicado publicado pela própria empresa via Business Wire, a aquisição transforma a Circle na principal detentora de patentes blockchain nos Estados Unidos e deve apoiar produtos como USDC, Circle Payments Network, Arc e soluções voltadas a ferramentas financeiras de agentes de IA.
Patentes reforçam a camada institucional do USDC
A compra chega em um momento em que stablecoins estão cada vez mais próximas de bancos, fintechs e redes de pagamento. A Circle vem tentando posicionar o USDC não apenas como um token pareado ao dólar, mas como infraestrutura para liquidação, pagamentos internacionais e aplicações empresariais.
Esse avanço conversa com uma sequência recente de movimentos institucionais envolvendo a empresa. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a entrada do BNY na custódia institucional do USDC, a stablecoin tem ganhado espaço em produtos voltados a clientes profissionais. Também reportamos que a Circle levou o USDC a plataformas da Kakao e da Toss na Coreia do Sul, ampliando sua presença fora dos Estados Unidos.
Em declaração no comunicado, Sarah Wilson, diretora jurídica e secretária corporativa da Circle, afirmou que propriedade intelectual é uma peça crítica para ampliar a adoção de infraestrutura on-chain. A empresa também disse que Circle e IBM pretendem explorar oportunidades comerciais adicionais, embora os termos financeiros da aquisição não tenham sido divulgados.
O que a IBM entrega nessa negociação
A IBM foi uma das empresas tradicionais que mais cedo apostaram em blockchain corporativo, especialmente em soluções para bancos, cadeias de suprimentos e infraestrutura empresarial. Mesmo com a desaceleração de alguns projetos corporativos ao longo dos últimos anos, o acervo de patentes da companhia segue relevante para empresas que querem operar em setores regulados.
Segundo o CoinDesk, uma análise de dezembro de 2025 da PatSnap atribuía à IBM 790 patentes blockchain, ao lado de nomes como Advanced New Technologies e Bank of America entre os maiores detentores dos Estados Unidos. A compra, portanto, dá à Circle um escudo jurídico e técnico em áreas que podem se tornar mais sensíveis conforme stablecoins e ativos tokenizados entram em ambientes financeiros tradicionais.
A pauta também se conecta ao crescimento da tokenização de ativos reais. O CriptoBR vem acompanhando esse avanço, incluindo o caso em que a tokenização virou prioridade para 84% das instituições financeiras pesquisadas pela Broadridge. Para empresas como Circle, deter propriedade intelectual pode ajudar tanto na proteção de produtos próprios quanto em negociações com bancos, gestores e provedores de infraestrutura.
Nem tudo ficou claro no anúncio
Apesar do peso estratégico, o comunicado deixa pontos importantes em aberto. A Circle não revelou o valor da operação, quantas patentes adquiridas foram emitidas especificamente nos Estados Unidos, se a IBM manteve algum direito de licenciamento ou se a Circle pretende licenciar ou aplicar judicialmente o portfólio contra terceiros.
Esse detalhe é relevante porque patentes podem servir tanto como defesa contra disputas quanto como instrumento comercial. No setor cripto, onde muitos protocolos se apoiam em padrões abertos e interoperabilidade, qualquer uso agressivo de propriedade intelectual tende a ser acompanhado de perto por desenvolvedores, empresas concorrentes e investidores.
Por enquanto, a leitura mais direta é que a Circle está comprando proteção e poder de negociação para uma fase em que stablecoins, redes de pagamento e produtos tokenizados deixam de ser nicho cripto e passam a disputar espaço dentro da infraestrutura financeira global.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





