A Framework Ventures levantou US$ 400 milhões em seu quarto fundo e quer investir na interseção entre blockchain, IA, robótica, energia e fintech. A tese é que stablecoins e tokenização deixaram de ser apenas produtos cripto e podem virar trilhos de financiamento para infraestrutura real, como GPUs, robôs e redes de energia.
A Framework Ventures levantou US$ 400 milhões para um novo fundo e colocou uma tese clara na mesa: a próxima grande fase da cripto pode não estar em mais um protocolo especulativo, mas no uso de blockchain como camada de financiamento para inteligência artificial, robótica, energia e infraestrutura financeira.
Segundo o CoinDesk, o fundo marca uma ampliação da estratégia da gestora, conhecida por apostas em DeFi e infraestrutura cripto. O cofundador Michael Anderson afirmou que tokenização, stablecoins e redes descentralizadas estão migrando de produtos feitos apenas para usuários cripto para ferramentas de formação de capital em setores que precisam de financiamento intensivo.
https://x.com/hiFramework/status/2070518698671042794
Por que a tese importa para o mercado cripto
O ponto central é simples: IA, robótica e energia exigem muito capital antes de gerar escala. Data centers precisam de GPUs, startups de robótica precisam de hardware caro e projetos de energia dependem de infraestrutura física. Para a Framework, ativos tokenizados e stablecoins podem abrir novos caminhos para financiar esse tipo de equipamento.
Anderson citou a infraestrutura de IA como exemplo. Em vez de tratar servidores e GPUs apenas como despesas difíceis de securitizar no mercado tradicional, a tese é que esses ativos possam virar garantias ou instrumentos financeiros em blockchain. Com mais de US$ 300 bilhões em stablecoins circulando on-chain, há uma base de capital que pode buscar rendimento em crédito lastreado em ativos reais.
Essa leitura conversa com uma tendência que já aparece em outras frentes. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a Ondo e a nova onda de tokenização após os ETFs, parte do mercado passou a enxergar RWA como uma ponte entre cripto e finanças tradicionais. A diferença agora é que o alvo não são apenas títulos públicos ou ações tokenizadas, mas infraestrutura usada por setores de alta demanda.
Framework não está abandonando cripto
A mudança de foco não significa saída do setor. A Framework nasceu em 2019 com forte presença em DeFi e participou de projetos como Chainlink, Synthetix e Axie Infinity. Mais recentemente, a gestora manteve posições em Hyperliquid, Plasma e Sky, além de investir em empresas ligadas a stablecoins e pagamentos.
O próprio anúncio público da Framework diz que o novo fundo, chamado FVIV, mira a interseção entre blockchain, IA, robótica, energia e fintech. A firma também destacou a Mecka AI, startup de dados para robótica que levantou uma rodada de US$ 60 milhões liderada pela gestora, como exemplo prático dessa tese.
Para o investidor cripto, o recado é relevante porque desloca a narrativa. No ciclo de 2020 e 2021, boa parte do mercado girava em torno de protocolos criados para outros usuários cripto: exchanges descentralizadas, DAOs, farming e tokens de governança. Agora, a promessa é que a infraestrutura on-chain seja usada por empresas fora da bolha cripto.
Stablecoins viram peça de infraestrutura
As stablecoins aparecem como uma das pontes mais importantes dessa estratégia. Elas já são usadas em pagamentos, tesouraria e remessas, mas também podem funcionar como capital disponível para empréstimos e estruturas de crédito on-chain. O CriptoBR já acompanhou movimentos nessa direção, como a entrada de US$ 150 milhões em stablecoins da Spark na Uniswap v4 e a expansão de pagamentos com stablecoins no Brasil.
O avanço, porém, vem com riscos. Ativos tokenizados precisam de avaliação, custódia, governança, liquidez e proteção jurídica. Um token lastreado em GPU, energia solar ou estoque físico só é tão bom quanto a estrutura que garante o direito econômico por trás dele. Sem transparência, a tokenização pode apenas empacotar riscos antigos em uma interface nova.
Também há uma competição direta por atenção e capital. O CoinDesk observou que ações de IA têm atraído investidores enquanto cripto enfrenta um período mais fraco de preços, cenário parecido com o visto na recente queda do Bitcoin abaixo de US$ 60 mil. Como reportado na análise sobre a perda trimestral do Bitcoin, o mercado ainda opera sob pressão macro e fuga de risco.
O que muda daqui para frente
Se a Framework estiver certa, a próxima safra de aplicações blockchain será menos sobre criar mercados fechados dentro da cripto e mais sobre financiar infraestrutura que existe fora dela. Isso pode beneficiar protocolos de tokenização, emissores de stablecoins, plataformas de crédito on-chain e redes que consigam conectar capital digital a ativos verificáveis.
O desafio é provar que a tese funciona em escala. A indústria já teve ciclos de narrativas fortes que não se sustentaram. Desta vez, a diferença está na tentativa de ligar blockchain a demanda real por capital em IA, robótica e energia. Para o leitor, o sinal a observar não é apenas o tamanho do fundo, mas onde esse dinheiro será alocado e quais estruturas realmente gerarão fluxo financeiro fora da especulação.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





