A Ondo Finance comparou a tokenização ao início do boom dos ETFs e diz que a próxima grande demanda pode vir de agentes de IA operando carteiras on-chain. O tema reforça a disputa por infraestrutura financeira em blockchain, com Ethereum, stablecoins e ativos do mundo real ganhando espaço no radar institucional.
A tokenização voltou ao centro da agenda institucional cripto neste sábado (13), depois que John Hoffman, novo chefe de produtos de portfólio da Ondo Finance, comparou o estágio atual do setor ao começo da indústria de ETFs. Em entrevista ao CoinDesk, o executivo afirmou que a combinação entre blockchain e inteligência artificial pode criar uma nova camada de gestão de investimentos, com ativos financeiros negociados e rebalanceados diretamente on-chain.
O ponto principal é que a tokenização já não aparece apenas como experimento de bancos e gestoras. A tese defendida por Hoffman é que ações, títulos, fundos, ETFs e outros instrumentos financeiros precisam migrar para trilhos digitais antes que agentes autônomos de IA consigam executar estratégias de investimento em tempo real.
Tokenização tenta repetir a curva dos ETFs
Segundo Hoffman, a tokenização passa por um momento parecido com o dos ETFs no início dos anos 2000: ainda cercada de ceticismo, mas com potencial para virar infraestrutura padrão de mercado. Ele lembrou que os ETFs eram uma classe de cerca de US$ 200 bilhões quando começou a atuar no setor, antes de se tornarem uma indústria global próxima de US$ 20 trilhões.
No mercado cripto, a comparação importa porque a tokenização de ativos do mundo real, ou RWA, vem crescendo mesmo em ciclos de preço instáveis. A própria matéria do CoinDesk cita dados da RWA.xyz indicando que o mercado de ativos tokenizados já passou de US$ 33 bilhões, enquanto projeções de casas como Citi e Boston Consulting Group apontam para uma oportunidade trilionária nos próximos anos.
Essa leitura conversa com movimentos recentes já vistos no setor. O CriptoBR mostrou, por exemplo, como a Abra mira tokenização como próxima aposta de Wall Street e como a DTCC levou a discussão de tokenização para a Stellar. O recado é parecido: grandes players querem testar se blockchain pode reduzir atrito, ampliar liquidez e acelerar liquidação.
IA entra como nova fonte de demanda
A diferença no argumento da Ondo está no papel da inteligência artificial. Hoffman disse que agentes de IA devem se tornar participantes ativos dos mercados, comprando, vendendo e alocando capital por meio de produtos tokenizados. Para isso, o setor precisaria de três peças: ativos financeiros on-chain, infraestrutura de corretagem e custódia nativa, e estratégias de gestão que possam ser executadas automaticamente.
Na prática, a visão é de carteiras profissionais que se ajustam em tempo real a dados de mercado, risco e liquidez. Isso amplia o debate além da tokenização como simples “versão blockchain” de um título tradicional. O ativo tokenizado vira uma peça programável dentro de um sistema financeiro capaz de operar 24 horas por dia.
Esse tema também se conecta à corrida por pagamentos e automação com IA. Como o CriptoBR reportou na matéria sobre Ripple, XRP e RLUSD em pagamentos de agentes de IA, diferentes redes estão tentando se posicionar como trilhos para máquinas que negociam, pagam e liquidam transações sem intervenção humana constante.
Ethereum e RWA seguem no centro da disputa
Embora a Ondo tenha seus próprios produtos e ambições, a tese favorece um tema mais amplo: redes públicas com liquidez, stablecoins e infraestrutura DeFi podem ganhar relevância se ativos tradicionais migrarem de forma consistente para blockchain. Ethereum segue como uma das principais beneficiárias dessa narrativa, especialmente por concentrar parte relevante da liquidez e dos padrões usados por emissores institucionais.
Ao mesmo tempo, a adoção ainda enfrenta barreiras conhecidas. Regulação, custódia, integração com sistemas legados e governança operacional continuam sendo obstáculos para bancos, corretoras e gestoras. A tokenização só vira mercado de massa se conseguir entregar eficiência real sem criar novos riscos de compliance ou liquidez.
Para o leitor, o sinal é que RWA deixou de ser apenas uma narrativa de ciclo. A disputa agora é por quem fornece a infraestrutura de portfólios on-chain, stablecoins, liquidação e automação. Se a comparação com ETFs se confirmar, a tokenização pode ser uma das pontes mais importantes entre cripto e finanças tradicionais na próxima década.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





