A Ethereum Foundation anunciou uma reestruturação que corta 54 cargos, cerca de 20% da equipe, e reorganiza o trabalho em cinco frentes principais. A mudança busca reduzir custos, dar foco ao desenvolvimento do protocolo e responder a meses de pressão sobre governança e execução.
A Ethereum Foundation anunciou nesta terça-feira (23) uma reestruturação ampla que elimina 54 posições, o equivalente a cerca de 20% de sua equipe. A fundação afirma que a mudança encerra um processo interno de meses e deixa a organização mais enxuta para executar tarefas consideradas críticas para o futuro do Ethereum.
O anúncio chega em um momento sensível para o ecossistema. Além do corte de pessoal, a fundação vem lidando com saídas de nomes importantes, debate sobre sua governança e pressão para explicar como pretende financiar o desenvolvimento do Ethereum sem depender de gastos elevados da tesouraria.
Fundação passa a operar em cinco frentes
Segundo o post oficial da Ethereum Foundation, a nova estrutura será dividida em cinco clusters: protocolo, acesso, usuário, comunidade e institucional. Também haverá áreas separadas para operações e gestão.
A frente de protocolo fica com a missão mais técnica: manter o Ethereum resistente à censura e à captura, reduzir complexidade, melhorar segurança e transformar pesquisas de longo prazo em mudanças práticas. Entre os temas citados estão segurança pós-quântica, zkEVM, privacidade na camada 1 e defesa contra formas tóxicas de MEV.
A camada de acesso mira a experiência de quem precisa usar a rede sem depender de intermediários. Isso inclui leitura da blockchain, envio de transações, provas, delegação e saída de sistemas. Na prática, a fundação quer garantir que exista uma alternativa verificável e sem intermediário para caminhos que hoje tendem a concentrar poder em plataformas, carteiras ou provedores de infraestrutura.
O cluster institucional terá uma função diferente: aproximar Ethereum de empresas, governos, universidades e organizações sem fins lucrativos, mas com foco em integrações que preservem privacidade, portabilidade de dados, execução correta e capacidade de saída. Esse ponto é relevante porque o Ethereum disputa espaço em tokenização, pagamentos, identidade e infraestrutura financeira com redes concorrentes e soluções privadas.
Corte ocorre após meses de pressão interna
De acordo com o CoinDesk, a redução acontece depois de uma sequência de saídas de lideranças e pesquisadores. A reportagem cita que cerca de nove figuras sêniores deixaram ou passaram por transições nos últimos seis meses, aumentando o escrutínio sobre a capacidade da fundação de coordenar o roadmap do Ethereum.
Esse contexto já vinha aparecendo no radar do mercado. O CriptoBR mostrou recentemente que a Ethereum Foundation perdeu oito nomes e testou nova liderança, em um movimento que reacendeu discussões sobre governança, ritmo de entrega e dependência de poucos coordenadores técnicos.
Vitalik Buterin também comentou a mudança de rota. Segundo o Crypto Briefing, o cofundador disse que o orçamento da fundação será reduzido em cerca de 40% neste ano. A meta de longo prazo é sair de um modelo que consome aproximadamente 15% dos recursos remanescentes por ano para uma base próxima de 5% após 2030.
O que muda para ETH e para desenvolvedores
Para holders de ETH, o ponto central não é apenas o corte de custos. A pergunta é se uma fundação menor consegue manter coordenação suficiente para upgrades, pesquisa aplicada e suporte ao ecossistema. O próprio debate sobre uma Ethereum Foundation menor e com menos vendas de ETH já tinha mostrado que parte da comunidade quer disciplina financeira, mas sem enfraquecer o núcleo técnico da rede.
Para desenvolvedores, a nova estrutura sugere uma fundação mais seletiva: menos projetos periféricos, mais ênfase em protocolo, privacidade, segurança, acesso direto e casos institucionais repetíveis. Isso pode tornar o roadmap mais claro, mas também pode deixar lacunas em áreas que antes recebiam apoio mais amplo da fundação.
Há ainda uma leitura competitiva. Enquanto a Ethereum Foundation se reorganiza, outras iniciativas surgem para acelerar partes do ecossistema. O CoinDesk cita o ETHLabs, apoiado por Joseph Lubin e empresas com tesourarias em ETH, como um esforço paralelo de pesquisa e desenvolvimento. Se essa divisão de trabalho funcionar, o Ethereum pode ganhar mais centros de execução. Se falhar, o risco é fragmentar ainda mais a coordenação.
A reestruturação também conversa com discussões técnicas recentes, como a tentativa de melhorar segurança de usuários por meio de padrões de assinatura mais claros. Como o CriptoBR reportou, o Ethereum lançou um padrão para barrar assinaturas cegas, uma frente que combina segurança, usabilidade e infraestrutura de carteiras.
No curto prazo, a notícia tende a ser lida como sinal de ajuste e incerteza. No médio prazo, o resultado dependerá de algo mais concreto: se a fundação conseguirá transformar a estrutura de cinco clusters em entregas visíveis para usuários, desenvolvedores e instituições sem perder a função de coordenação que historicamente sustentou o Ethereum.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





