CME Group e ICE pressionam autoridades dos EUA para ampliar a supervisão sobre a Hyperliquid, alegando riscos de manipulação, sanções e impacto em derivativos ligados ao petróleo. A disputa expõe o choque entre bolsas tradicionais e mercados on-chain 24/7, enquanto a Hyperliquid tenta defender sua transparência pública em Washington.
CME Group e Intercontinental Exchange (ICE), duas das maiores operadoras de bolsas do mundo, estão pressionando reguladores dos Estados Unidos a colocar a Hyperliquid sob escrutínio mais duro. Segundo reportagens baseadas em informações da Bloomberg, as empresas levaram à CFTC e a autoridades no Congresso preocupações sobre manipulação de mercado, evasão de sanções e efeitos sobre contratos ligados ao petróleo.
O caso importa porque a Hyperliquid deixou de ser apenas uma DEX de traders cripto. A plataforma ganhou tração em derivativos perpétuos on-chain e passou a listar mercados sintéticos ligados a ativos macro, incluindo petróleo. Em um ambiente que funciona 24 horas por dia, inclusive em fins de semana, esse tipo de produto começa a disputar espaço com mercados tradicionais de commodities.
Por que CME e ICE miram a Hyperliquid
De acordo com o Bitcoin.com News, CME e ICE argumentam que a estrutura descentralizada e o ambiente de negociação majoritariamente anônimo da Hyperliquid poderiam abrir brechas para wash trading, spoofing, coordenação de insiders e participação de entidades sancionadas. A preocupação central é que contratos on-chain ligados a Brent ou WTI possam influenciar a formação de preços em mercados globais de energia.
A TradingView, citando reportagem da NewsBTC, destacou que o token HYPE recuou cerca de 6% após a notícia, chegando a cair da máxima intradiária próxima de US$ 46,93 para a região de US$ 43,81. O Bitcoin.com News apontou queda próxima de 9% em outro recorte de preço, com o HYPE tocando US$ 41,49 em 16 de maio.
A tensão não surge do nada. Em março, como o CriptoBR mostrou na matéria sobre o salto do petróleo e as liquidações na Hyperliquid, contratos ligados ao WTI tiveram forte volume durante um choque geopolítico. Esse episódio virou exemplo do potencial — e do risco — de mercados sempre abertos reagirem antes das bolsas tradicionais.
Resposta da Hyperliquid é ir a Washington
A Hyperliquid não ficou parada. O cofundador Jeff Yan disse em 15 de maio que se reuniu com formuladores de política pública em Washington para discutir “os benefícios” da plataforma para consumidores americanos e um caminho regulatório para trazer derivativos on-chain aos EUA.
O Hyperliquid Policy Center, grupo de pesquisa e advocacy ligado ao ecossistema, também rebateu as críticas. Em nota citada por veículos internacionais, a organização afirmou que as preocupações são infundadas e que a plataforma publica um registro completo on-chain, o que permitiria mais transparência do que sistemas fechados de negociação.
O argumento pró-Hyperliquid é simples: se todas as ordens, posições e liquidações relevantes podem ser auditadas publicamente, a fiscalização ganha uma nova camada de dados. Já a visão de CME e ICE é que transparência de blockchain não substitui KYC, vigilância formal de negociação e regras aplicadas por uma bolsa registrada.
Disputa vai além de uma DEX
Para o mercado cripto, o embate é mais um capítulo da disputa entre infraestrutura financeira tradicional e produtos nativos de blockchain. A Hyperliquid já vinha ganhando espaço no setor, inclusive após a entrada da Coinbase no ecossistema de USDC da Hyperliquid, movimento que reforçou a liquidez e a visibilidade do HYPE.
Ao mesmo tempo, CME e Nasdaq seguem ampliando sua presença em cripto regulado. Como o CriptoBR noticiou, as bolsas anunciaram planos para futuros de índice cripto, um sinal de que o apetite institucional por derivativos digitais continua crescendo — mas dentro de trilhos supervisionados.
Se a CFTC aceitar parte dos argumentos de CME e ICE, a Hyperliquid pode ser pressionada a adotar cadastro de usuários, monitoramento formal de negociações e limites mais próximos aos de uma bolsa tradicional. Se a tese da plataforma prevalecer, os EUA podem abrir espaço para um modelo híbrido: mercados on-chain com regras adaptadas, mas sem copiar integralmente a infraestrutura da TradFi.
Para traders, o ponto prático é acompanhar duas frentes ao mesmo tempo: o risco regulatório sobre a Hyperliquid e a reação do HYPE. Para o setor, a pergunta é maior: até onde os mercados descentralizados podem avançar em ativos macro antes de bater de frente com as instituições que dominam a liquidez global?
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





