A Casa Branca começou a revisar uma proposta da CFTC para mercados de previsão, etapa que pode definir como plataformas como Polymarket e Kalshi operam nos EUA. O movimento vem logo após Donald Trump defender autoridade federal exclusiva para o setor, em meio à disputa com estados que tratam parte desses contratos como apostas.
A Casa Branca colocou em revisão uma proposta da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) para mercados de previsão, um passo formal que pode abrir caminho para uma estrutura federal mais clara para contratos de evento nos Estados Unidos. A pauta atinge diretamente plataformas como Polymarket e Kalshi, que cresceram ao transformar perguntas sobre política, esportes, economia e cripto em mercados negociáveis.
Segundo o CoinDesk, o Office of Information and Regulatory Affairs (OIRA), braço regulatório da Casa Branca, recebeu em 26 de maio a proposta da CFTC sobre “Prediction Markets”. O texto da regra ainda não foi publicado, mas a entrada no processo de revisão indica que a agência avança depois de meses de disputa judicial e política sobre quem deve supervisionar esse mercado.
Por que a revisão importa
Na prática, a discussão gira em torno de uma pergunta simples e sensível: contratos de evento são derivativos financeiros ou apostas online? A CFTC defende que mercados listados em bolsas reguladas, conhecidas como designated contract markets, ficam sob sua jurisdição federal. Estados como Illinois, Nova York e Nova Jersey argumentam que parte desses produtos, especialmente os ligados a esportes e entretenimento, funciona como jogo e deveria seguir regras locais de apostas.
Essa diferença muda tudo para o setor. Se a visão federal prevalecer, empresas cripto e fintechs podem ter um caminho mais uniforme para operar nacionalmente. Se os estados ganharem força, a expansão tende a ficar fragmentada, com bloqueios, ações judiciais e exigências diferentes em cada jurisdição.
O tema não surgiu do nada. Em março, a própria CFTC abriu consulta pública sobre contratos de evento e perguntou quais mercados poderiam ser considerados contrários ao interesse público, incluindo contratos ligados a eleições, jogos, esportes, guerra e outras categorias sensíveis. A agência também tem usado ações judiciais e manifestações em tribunais para reafirmar sua autoridade sobre mercados de previsão.
Trump aumenta o peso político da pauta
A revisão ganhou ainda mais peso porque veio poucos dias depois de Donald Trump defender publicamente que a CFTC mantenha autoridade exclusiva sobre mercados de previsão. Em publicação citada pelo CoinDesk, Trump afirmou que os EUA querem preservar liderança tanto nesse segmento quanto em cripto, enquanto outros países também disputam esse espaço.
O posicionamento reforça a leitura de que mercados de previsão deixaram de ser uma curiosidade de nicho. Kalshi opera como mercado regulado nos EUA, enquanto Polymarket continua sendo uma referência cripto global, mesmo enfrentando restrições de acesso em diversas regiões. O CriptoBR já mostrou como a Espanha bloqueou Polymarket e Kalshi por falta de licença, e como o Congresso dos EUA passou a mirar as plataformas por risco de insider trading.
Esse pano de fundo explica por que uma regra federal é tão importante. O setor precisa provar que consegue lidar com manipulação, uso de informação privilegiada, geobloqueio e integridade de mercado. Ao mesmo tempo, plataformas cripto argumentam que contratos de previsão podem funcionar como instrumentos de preço, hedge e inteligência coletiva, não apenas como apostas.
Impacto para Polymarket, Kalshi e cripto
Para Polymarket, uma estrutura federal mais previsível nos EUA pode ser decisiva para qualquer plano de retorno mais amplo ao mercado americano. A plataforma já foi alvo de restrições e segue com acesso limitado para usuários em várias jurisdições. Em paralelo, executivos têm buscado afastar a ideia de que a empresa adotará verificação obrigatória de identidade em sua plataforma principal, depois de relatos sobre possíveis medidas de KYC.
Para Kalshi, a disputa também é central. A empresa construiu sua tese sobre o status de mercado regulado pela CFTC, mas continua enfrentando resistência de reguladores estaduais que veem contratos esportivos como apostas. Como o CriptoBR explicou anteriormente, a CFTC já processou Nova York para defender sua jurisdição sobre mercados de previsão.
O ponto para o leitor cripto é que essa briga pode definir quais plataformas terão escala, liquidez e segurança jurídica nos próximos anos. Se a CFTC consolidar uma regra clara, mercados de previsão podem se aproximar ainda mais do mercado financeiro tradicional. Se a disputa continuar travada em tribunais estaduais, o setor tende a crescer de forma desigual, com mais bloqueios e incerteza para usuários e operadores.
Por enquanto, a proposta ainda precisa passar pela revisão da Casa Branca antes de avançar. O texto final dirá se Washington pretende apenas organizar regras já existentes ou redesenhar a fronteira entre derivativos, apostas e mercados cripto de informação.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





