Jeremy Allaire, CEO da Circle, disse ver “grande oportunidade” para uma stablecoin lastreada em yuan e estimou que a China poderia lançar esse produto em 3 a 5 anos. A fala reacende a disputa entre dólar e yuan no mercado de pagamentos globais com cripto.
O CEO da Circle, Jeremy Allaire, afirmou que existe uma “grande oportunidade” para uma stablecoin lastreada em yuan, em mais um sinal de que a disputa monetária global pode ganhar uma nova frente dentro do mercado cripto. Em entrevista à Reuters em Hong Kong, o executivo disse que a China poderia lançar um ativo desse tipo nos próximos três a cinco anos.
Na prática, a leitura de Allaire é que as stablecoins viraram uma forma de “exportar” moedas nacionais para pagamentos internacionais, com liquidação mais rápida e menor custo operacional. Se essa tese avançar, um token atrelado ao yuan colocaria a segunda maior economia do mundo em competição mais direta com o domínio das stablecoins em dólar.
Por que a fala da Circle importa
Allaire argumentou que a corrida das stablecoins deixou de ser apenas financeira e passou a ser também tecnológica. Segundo ele, países que quiserem ampliar a presença internacional de suas moedas precisarão oferecer infraestrutura digital competitiva. O comentário ganha peso porque parte do maior emissor regulado de stablecoins fora do Tether, em um momento em que o debate regulatório sobre stablecoins nos EUA segue acelerado.
A hipótese também conversa com movimentos recentes do setor. Como mostramos na matéria sobre como as stablecoins avançam sobre as finanças tradicionais, emissores e empresas vêm tentando transformar esses ativos em trilhos permanentes para comércio, remessas e serviços corporativos.
China ainda mantém restrições ao mercado cripto
Apesar da projeção de Allaire, uma eventual stablecoin em yuan exigiria uma mudança relevante na postura de Pequim. A China baniu mineração e negociações com criptomoedas em 2021, citando riscos à estabilidade financeira. Em novembro do ano passado, o banco central do país voltou a reforçar sua linha dura contra ativos virtuais durante um novo ciclo de euforia do mercado.
Ainda assim, o tema não desapareceu do radar. A própria Reuters já havia informado em agosto que autoridades chinesas avaliavam alternativas com stablecoins em yuan para ampliar o uso internacional da moeda. Isso se conecta ao esforço mais amplo do país para internacionalizar a divisa, algo que já apareceu em iniciativas ligadas ao yuan digital e pagamentos transfronteiriços.
Mercado vê stablecoins como nova arena geopolítica
O pano de fundo é um crescimento acelerado do setor. Segundo a Circle, a circulação da USDC subiu 72% em um ano e atingiu US$ 75,3 bilhões ao fim de 2025. Allaire também disse à Reuters que a empresa registrou crescimento de “vários bilhões de dólares” nas transações com USDC após o início da guerra entre EUA e Irã, com investidores buscando dólares digitais portáteis.
Para o mercado, isso reforça uma mudança importante. Stablecoins já não são vistas apenas como ferramenta de traders ou ponte entre corretoras. Elas passaram a funcionar como infraestrutura de liquidação global, ponto que ajuda a explicar por que Hong Kong entrou no radar da Circle como centro estratégico para pagamentos e compensação internacional.
Se a China realmente decidir avançar com uma stablecoin em yuan, o impacto pode ir além do universo cripto. O movimento abriria uma disputa mais explícita com as stablecoins em dólar, hoje dominantes, e colocaria regulação, tecnologia e política monetária dentro da mesma corrida.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





