O CEO da Bybit, Ben Zhou, disse ao CoinDesk que a licença MiCA sozinha não basta para uma exchange lucrar na Europa. Segundo ele, produtos como derivativos e ativos tokenizados exigem também autorizações MiFID II e EMI, o que deve acelerar a consolidação do setor após o fim do período de transição em junho.
A MiCA virou o principal passaporte regulatório para exchanges de cripto na Europa, mas a licença pode não ser suficiente para sustentar um negócio rentável. Em entrevista ao CoinDesk, Ben Zhou, CEO da Bybit, afirmou que empresas autorizadas pelo regime europeu ainda precisam de outras licenças para operar produtos mais lucrativos, como derivativos e ativos tokenizados.
O alerta chega em um momento sensível para o mercado europeu. O período de transição da MiCA termina no fim de junho, e prestadores de serviços cripto que não tiverem autorização até julho podem perder a capacidade de operar em todo o Espaço Econômico Europeu. Na prática, a regra tende a separar empresas com caixa e estrutura de compliance das plataformas menores.
MiCA abre portas, mas não cobre o negócio inteiro
Zhou disse que a licença MiCA permite operações básicas de fiat para cripto e de cripto para cripto, mas não cobre toda a linha de produtos necessária para uma grande exchange. Para oferecer derivativos, instrumentos tokenizados e serviços de dinheiro eletrônico, as empresas também precisam de licenças como MiFID II e EMI.
“Com o framework atual da MiCA, você só consegue fazer fiat-cripto e cripto-cripto”, afirmou Zhou ao CoinDesk. Segundo o executivo, isso explica por que algumas empresas que já tinham múltiplas licenças antes da nova regra, como Kraken e Bitpanda, podem operar com mais facilidade do que concorrentes que estão começando do zero.
A leitura conversa com um tema que o CriptoBR já acompanha: a Europa quer padronizar o mercado, mas a padronização não elimina o custo regulatório. Em março, a Revolut obteve licença MiCA no Chipre para expandir serviços cripto, enquanto outras plataformas passaram a reavaliar produtos disponíveis para usuários europeus.
Consolidação pode atingir exchanges menores
Para o CEO da Bybit, a fase atual pode provocar uma consolidação forte. Empresas pequenas e médias precisam não apenas pagar pela autorização MiCA, mas também investir em infraestrutura de compliance, equipes jurídicas e novas licenças se quiserem disputar produtos de margem maior.
“Vai haver consolidação de mercado”, disse Zhou. A avaliação é direta: mesmo quem consegue arcar com a MiCA pode concluir que a operação não fecha a conta sem MiFID, EMI e uma estrutura regulatória mais robusta.
A Bybit escolheu buscar supervisão na Áustria, por meio da FMA, uma autoridade considerada mais rígida. Zhou argumenta que essa escolha pode pesar positivamente no longo prazo, embora reconheça que cada país europeu interpreta a MiCA com níveis diferentes de rigor.
O impacto para usuários e para o setor cripto
Para usuários, a mudança pode significar menos plataformas disponíveis, menos produtos de alto risco e maior concentração em exchanges com escala global. Para o setor, o efeito é mais ambíguo: a MiCA traz previsibilidade, mas também eleva a barreira de entrada.
Esse movimento reforça um padrão visto em outras frentes regulatórias. Nos EUA, por exemplo, mais de 100 empresas pressionaram o Senado por avanço no Clarity Act, justamente para evitar que regras provisórias definam o futuro do mercado. Na Europa, a regra já existe, mas o desafio agora é transformar autorização em modelo de negócio sustentável.
A própria Bybit ainda não espera lucro imediato na região. Zhou afirmou que a exchange não ganha dinheiro sob a licença atual, mas vê a operação como investimento de longo prazo. A estimativa do executivo é que a rentabilidade na Europa possa chegar em até dois anos, dependendo da obtenção das licenças complementares.
O ponto central é que a MiCA não encerra a corrida regulatória: ela apenas muda o ponto de partida. Para exchanges globais, a nova fase será menos sobre conseguir uma licença única e mais sobre montar um pacote regulatório completo. Para concorrentes menores, a pergunta será se vale pagar essa conta.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





