Enquanto o mercado crypto ainda digere os efeitos do conflito EUA-Irã sobre o preço do Bitcoin, um movimento silencioso — mas potencialmente mais transformador — ganhou força nesta segunda-feira (9): as stablecoins estão avançando com velocidade inédita sobre o sistema financeiro tradicional.
Três notícias publicadas no mesmo dia ilustram essa tendência. A gigante de seguros Aon testou pagamentos com stablecoins pela primeira vez. A plataforma de pagamentos KAST levantou US$ 80 milhões para expandir transferências internacionais com dólares digitais. E as ações da Circle, emissora do USDC, dispararam 86% em um mês. Coincidência? Dificilmente.
Aon testa pagamentos com USDC e PayPal USD
A Aon, uma das maiores corretoras de seguros do mundo com US$ 5 trilhões em ativos sob consultoria, realizou uma prova de conceito utilizando stablecoins para liquidar pagamentos de prêmios de seguros.
A empresa trabalhou com a Coinbase e a Paxos para completar transações usando USDC na rede Ethereum e PayPal USD (PYUSD) na Solana. Segundo a Aon, esta foi a primeira vez que uma grande corretora global de seguros aceitou stablecoins para liquidação de prêmios, mesmo que em caráter experimental.
O teste não é trivial. Prêmios de seguros hoje passam por bancos cujos sistemas de compensação podem levar dias para liquidar, especialmente em operações internacionais. Com blockchain, esses pagamentos podem ser concluídos em minutos, com registro transparente de cada transação.
“O potencial de longo prazo é significativo. Este trabalho nos permite entender como esses mecanismos operam dentro de sistemas e frameworks estabelecidos, para que estejamos preparados para avaliar oportunidades de eficiência e redução de custos conforme a tecnologia amadurece.” — John King, tesoureiro da Aon
KAST levanta US$ 80 milhões para pagamentos cross-border
No mesmo dia, a KAST — plataforma financeira focada em pagamentos internacionais com stablecoins — anunciou uma rodada Série A de US$ 80 milhões, liderada pela QED Investors e Left Lane Capital, com valuation de US$ 600 milhões.
A empresa já ultrapassou 1 milhão de usuários e processa cerca de US$ 5 bilhões em volume anualizado de transações desde seu lançamento há 18 meses. A receita dobrou desde setembro de 2025.
O dado mais relevante para o mercado brasileiro: a KAST planeja expansão para América Latina, além de América do Norte e Oriente Médio. A empresa também pretende lançar o KAST Business para payouts, folha de pagamento e gastos internacionais — exatamente o tipo de solução que o mercado de remessas da região precisa.
Para contexto, stablecoins movimentaram mais de US$ 35 trilhões em transações no ano passado, mas apenas cerca de 1% representou pagamentos do mundo real como remessas ou salários, segundo McKinsey e Artemis Analytics. O espaço para crescimento é enorme.
Circle dispara 86% na bolsa em um mês
As ações da Circle (CRCL), emissora do USDC — a segunda maior stablecoin do mundo —, subiram mais 10% nesta segunda-feira, acumulando uma alta de 86% no último mês.
Segundo análise do banco japonês Mizuho, parte da valorização reflete a alta do petróleo após a escalada no Oriente Médio. Preços mais altos de energia tendem a alimentar inflação e limitar a capacidade dos bancos centrais de cortar juros — cenário que beneficia emissores de stablecoins, que lucram mais quando as taxas de juros sobre suas reservas em dólares são maiores.
Mas posicionamento de mercado também jogou a favor. Segundo Markus Thielen, fundador da 10x Research, hedge funds haviam acumulado posições vendidas (short) antes do balanço da empresa, criando as condições para um short squeeze — quando vendedores a descoberto são forçados a recomprar, amplificando a alta.
“A magnitude do movimento não foi puramente sobre os números do balanço. O posicionamento foi o verdadeiro catalisador.” — Markus Thielen, 10x Research
O que isso significa para o mercado
Esses três eventos, no mesmo dia, revelam uma tendência que vai muito além de um rally de preço: as stablecoins estão deixando de ser ferramenta especulativa para se tornar infraestrutura financeira.
A aprovação do Genius Act nos EUA em 2025 — que estabeleceu um framework federal para emissores de stablecoins com regras sobre reservas e supervisão — deu a clareza regulatória que bancos, fintechs e grandes empresas precisavam para começar a testar dólares tokenizados dentro do sistema existente.
Para o Brasil, o impacto pode ser ainda mais relevante. O país já é o maior mercado crypto da América Latina com US$ 318 bilhões em volume, e stablecoins são amplamente usadas para remessas, proteção contra desvalorização do real e pagamentos internacionais. Com plataformas como a KAST expandindo para a região, a tendência é que esse uso só acelere.
A pergunta não é mais se as stablecoins vão integrar o sistema financeiro tradicional. É quão rápido.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





