A BNB Chain publicou um relatório técnico sobre como a BSC poderia migrar parte de sua criptografia para padrões resistentes à computação quântica. O estudo aponta que a mudança já é viável, mas cobra um preço relevante: transações e blocos ficam muito maiores, reduzindo a capacidade da rede nos testes.
A BNB Chain colocou a segurança pós-quântica no centro da discussão sobre infraestrutura blockchain. Em um relatório técnico publicado em 14 de maio, o ecossistema avaliou como a BNB Smart Chain (BSC) poderia substituir assinaturas tradicionais por alternativas resistentes a computadores quânticos, usando ML-DSA-44 para transações e pqSTARK para agregação de votos de validadores.
O ponto principal é direto: a migração parece tecnicamente possível hoje, mas ainda não é “de graça”. Segundo o relatório da própria BNB Chain, o tamanho das transações subiria de 110 bytes para cerca de 2,5 KB, enquanto blocos em um cenário de 2.000 transações por segundo poderiam crescer de aproximadamente 130 KB para cerca de 2 MB. Nos testes, isso reduziu o teto de throughput em algo próximo de 40% a 50%, especialmente por causa do peso maior dos dados trafegando entre regiões.
Por que a BNB Chain está olhando para computação quântica?
A ameaça ainda não é imediata. O relatório deixa claro que computadores quânticos atuais não conseguem quebrar a criptografia usada em blockchains de produção. A preocupação está no horizonte de longo prazo: algoritmos como o de Shor podem, em tese, comprometer sistemas baseados em logaritmo discreto, incluindo ECDSA e BLS12-381, usados hoje em assinaturas e agregação de consenso.
É por isso que a BNB Chain trata o tema como planejamento de infraestrutura, não como resposta a uma falha ativa. A rede já vinha acelerando mudanças técnicas, como no fork Osaka/Mendel para melhorar desempenho, e agora amplia a conversa para resiliência criptográfica de longo prazo.
No desenho testado, a camada de assinatura de transações sairia do ECDSA para o ML-DSA-44, um padrão pós-quântico baseado em reticulados e formalizado pelo NIST no FIPS 204. Já os votos de validadores deixariam a agregação BLS12-381 para usar provas pqSTARK.
Segurança maior, blocos mais pesados
O trade-off aparece nos números. A chave pública passaria de 64 bytes para 1.312 bytes, enquanto a assinatura subiria de 65 bytes para 2.420 bytes. Na prática, o gargalo não foi a verificação das assinaturas em si, mas o aumento do volume de dados que precisa circular pela rede.
Em testes cross-region, transferências nativas caíram de 4.973 TPS no cenário não pós-quântico para 2.997 TPS com a nova estrutura. A capacidade em megagas por segundo também recuou, de 392 para 196. A finalização mediana, porém, ficou em 2 slots nos cenários avaliados, o que sugere que o consenso não foi o principal problema; a latência de propagação dos blocos maiores pesou mais no percentil 99.
Na camada de consenso, o resultado foi mais favorável. Seis assinaturas de validadores, que somariam cerca de 14,5 KB, foram comprimidas em uma prova agregada de aproximadamente 340 bytes, uma razão próxima de 43:1. Isso ajuda a manter o overhead de validadores sob controle, mesmo com assinaturas individuais maiores.
O que ainda falta para produção
O estudo não cobre toda a superfície criptográfica da BSC. A BNB Chain deixou fora do escopo, por enquanto, os handshakes P2P e os compromissos KZG ligados ao ecossistema Ethereum. Esse segundo ponto exigiria coordenação mais ampla, já que mexe com componentes usados além da própria BSC.
Para o leitor, o recado é que segurança pós-quântica deixou de ser um debate puramente acadêmico e entrou no roteiro de grandes redes. Ainda assim, a migração envolve escolhas difíceis: proteger a rede contra uma ameaça futura sem sacrificar demais a experiência atual de usuários, validadores e aplicações.
A movimentação também conversa com uma fase em que a BNB Chain tenta reforçar sua imagem como infraestrutura técnica, não apenas como ecossistema de varejo. Recentemente, a rede também avançou em identidade de agentes de IA on-chain e viu crescimento em stablecoins circulando na rede, dois temas que aumentam a importância de segurança e escala.
O relatório da BNB Chain conclui que a prontidão pós-quântica é alcançável com ferramentas existentes, mas que o principal desafio antes de um rollout em produção está nas camadas de rede e dados. Em outras palavras: a criptografia já tem caminhos; agora falta fazer esses caminhos caberem em uma blockchain de alto volume.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





