Relatório da Bitso mostra que stablecoins ligadas ao dólar responderam por 40% das compras cripto na América Latina em 2025, superando o Bitcoin pela primeira vez. No Brasil, o mercado aparece mais equilibrado: stablecoins somaram 34% das compras, enquanto o Bitcoin ficou em 22%.
As stablecoins deixaram de ser apenas uma ferramenta de traders e passaram a liderar as compras de cripto na América Latina. Segundo o relatório Crypto Landscape in Latin America 2025, publicado pela Bitso, ativos digitais ligados ao dólar, como USDC e USDT, representaram 40% das aquisições na região em 2025, acima dos 18% registrados pelo Bitcoin.
O dado é relevante porque mostra uma mudança de uso: em vez de buscar apenas valorização de curto prazo, parte dos usuários está usando cripto como infraestrutura para poupança em dólar, pagamentos e transferências internacionais. A própria Bitso afirma que o movimento aponta para uma adoção menos especulativa e mais ligada a necessidades financeiras do dia a dia.
USDC lidera compras, mas Bitcoin segue como reserva
Na divisão regional de compras, o USDC apareceu na liderança, com 24% das aquisições, seguido por Bitcoin, com 18%, e USDT, com 16%. A combinação das duas stablecoins explica por que os “dólares digitais” ultrapassaram o BTC pela primeira vez no recorte analisado pela exchange.
Isso não significa que o Bitcoin perdeu importância nas carteiras. Pelo contrário: o relatório mostra que o BTC continua sendo o ativo mais presente nos portfólios dos usuários, com 52% de participação regional. Em 2024, esse número era de 53%, o que indica uma posição relativamente estável mesmo com a ascensão das stablecoins nas compras.
Esse comportamento ajuda a separar dois usos que hoje convivem no mercado latino-americano: stablecoins para liquidez, pagamentos e proteção cambial; Bitcoin como ativo de longo prazo. É uma leitura parecida com a dinâmica observada em outras frentes do mercado, como no crescimento de stablecoins no volume on-chain e na expansão de trilhos de pagamento com dólar tokenizado.
Brasil tem o mercado mais equilibrado
O recorte brasileiro chama atenção por ser menos concentrado em dólar do que outros mercados da região. De acordo com a Bitso, stablecoins responderam por 34% das compras no Brasil, enquanto o Bitcoin ficou com 22%. Já na Argentina, USDC e USDT somaram mais de 70% das compras, reflexo de uma demanda muito mais intensa por exposição ao dólar.
Colômbia e México aparecem em posição intermediária. A diferença entre os países reforça que o uso de cripto na América Latina não é uniforme: mercados com maior pressão cambial tendem a buscar stablecoins com mais força, enquanto economias mais equilibradas mantêm uma divisão maior entre reserva de valor, pagamentos e exposição a outros ativos digitais.
Para o leitor brasileiro, o ponto central é que stablecoins estão se consolidando como infraestrutura financeira regional, não apenas como par de negociação em exchanges. Isso se conecta ao avanço de soluções de pagamento e liquidação com tokens de dólar, tema que também aparece em iniciativas como a expansão da Visa com stablecoins em múltiplas blockchains e no uso crescente dessas moedas em redes como a BNB Chain.
Jovens seguem entrando em cripto
Outro dado do relatório é o aumento da participação de usuários entre 18 e 24 anos, que chegou a 29% da base analisada. Para a Bitso, isso sugere que a adoção não depende apenas de ciclos de alta do mercado, mas também de uma mudança geracional no acesso a ferramentas financeiras digitais.
A leitura é importante porque stablecoins podem funcionar como porta de entrada: primeiro o usuário busca proteção em dólar ou uma forma mais simples de transferir valor; depois, passa a explorar Bitcoin, Ethereum, DeFi ou outros ativos. Ao mesmo tempo, a Bitso observa que uma parcela menor de usuários avançados, entre 8% e 10%, continua concentrando uma fatia desproporcional do volume negociado.
No curto prazo, o relatório reforça uma tendência já visível no mercado: stablecoins estão virando a camada operacional da criptoeconomia na América Latina, enquanto o Bitcoin mantém seu papel de reserva digital. A disputa, portanto, não é necessariamente entre um ativo e outro, mas entre funções diferentes dentro da mesma carteira.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





