Um novo estudo do BIS aponta que stablecoins em dólar podem criar uma forma persistente de “dolarização digital” em economias emergentes. O alerta importa porque esses fluxos parecem responder menos a controles de capital do que depósitos tradicionais em moeda estrangeira.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) acendeu um novo alerta sobre stablecoins em dólar. Em um working paper publicado em 21 de julho, pesquisadores da instituição afirmam que esses tokens podem abrir um canal de acesso ao dólar mais difícil de conter por mecanismos tradicionais de controle cambial, especialmente em economias emergentes.
A conclusão central é direta: stablecoins lastreadas em dólar podem funcionar como uma nova camada de “dolarização digital”. Segundo o estudo do BIS, fluxos de stablecoins parecem ser “largamente não afetados” por restrições de câmbio ou de fluxo de capital, ao contrário do que ocorre com depósitos bancários em moeda estrangeira.
O que o BIS encontrou
O paper, assinado por Boris Hofmann, Aaron Mehrotra e Jan Paulick, compara dados de depósitos em moeda estrangeira com fluxos recentes de stablecoins indexadas ao dólar em mais de 130 economias. A pesquisa indica que as duas formas de dolarização costumam crescer em ambientes parecidos: crises bancárias, tensão soberana, inflação alta e perda de confiança na moeda local.
A diferença está na resposta às barreiras regulatórias. Depósitos em dólar dentro do sistema bancário tendem a ser mais sensíveis a controles oficiais. Já as stablecoins circulam parcialmente fora do perímetro regulatório, o que pode reduzir a capacidade de governos de frear saídas de capital ou limitar a substituição da moeda local por ativos digitais dolarizados.
O tema conversa com um debate que vem ganhando força no mercado. Como o CriptoBR noticiou na matéria sobre EUA e Reino Unido alinhando regras para stablecoins, grandes jurisdições tentam criar padrões comuns para emissores, reservas, pagamentos e supervisão. O estudo do BIS adiciona uma camada macroeconômica a essa discussão: o impacto sobre soberania monetária.
Por que isso importa para mercados emergentes
Em países com inflação elevada, restrição de acesso ao dólar ou instabilidade bancária, stablecoins como USDT e USDC podem ser vistas por usuários e empresas como uma alternativa rápida para preservar valor. Essa utilidade explica parte da adoção, mas também cria um desafio para bancos centrais: quanto maior a migração para instrumentos dolarizados, menor pode ser a efetividade de políticas monetárias locais.
O BIS ressalta que a dolarização, uma vez instalada, tende a ser persistente. Em outras palavras, não é um comportamento que desaparece automaticamente quando a crise passa. Essa leitura é relevante para reguladores porque coloca as stablecoins não apenas como infraestrutura de pagamento, mas também como uma possível válvula de escape para capitais em momentos de estresse.
O alerta chega em um momento de expansão institucional do setor. A plataforma de stablecoins lançada pela Visa para bancos mostra como o tema saiu do nicho cripto e entrou na agenda de pagamentos globais. Ao mesmo tempo, redes públicas seguem disputando liquidez: a BNB Chain já liderou métricas de endereços ligados a stablecoins, sinal de que a adoção também ocorre fora dos trilhos bancários tradicionais.
Regulação deve mirar emissores e canais de acesso
A leitura prática é que reguladores devem olhar para dois pontos: os emissores das stablecoins e os intermediários que dão acesso ao usuário final. Controles apenas sobre bancos locais podem ser insuficientes se a liquidez circular por exchanges globais, carteiras autocustodiais e protocolos descentralizados.
Isso não significa que o BIS esteja tratando stablecoins apenas como risco. O relatório reconhece que os tokens oferecem acesso fácil à liquidez em dólar e podem atender demandas reais de pagamento e reserva de valor. A preocupação é o efeito agregado quando esse acesso cresce em economias onde a moeda local já enfrenta fragilidade.
Para investidores, o estudo reforça que stablecoins devem continuar no centro da agenda regulatória global. Para emissores e exchanges, o recado é que a próxima fase de supervisão tende a ir além de reservas e auditorias: a discussão também passa por fluxo de capitais, política monetária e estabilidade financeira.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





