O BIS afirmou que grandes exchanges de cripto estão operando cada vez mais como bancos paralelos ao oferecer produtos de yield e empréstimo sem as mesmas proteções do sistema financeiro tradicional. O alerta reacende o debate sobre transparência, segregação de risco e exposição do varejo depois dos colapsos de Celsius e FTX.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) alertou nesta quinta-feira que grandes exchanges de criptomoedas passaram a acumular funções típicas de bancos, corretoras e plataformas de trading, mas sem oferecer as salvaguardas que sustentam o sistema financeiro tradicional. Em relatório publicado pelo órgão, os autores afirmam que os produtos de “earn” e rendimento vendidos ao varejo se parecem mais com empréstimos sem garantia do que com contas de poupança.
Na prática, o BIS argumenta que o usuário entrega seus ativos para a plataforma, que pode reaproveitar esses fundos em operações de crédito, market making ou trading próprio. Quando isso acontece sem seguro, transparência adequada ou separação clara de risco, o investidor fica exposto diretamente à solvência da empresa, segundo o documento.
BIS vê avanço de “shadow banks” no mercado cripto
O relatório descreve as maiores exchanges como “intermediários multifuncionais de criptoativos”, uma estrutura que combina atividades que, no mercado tradicional, normalmente ficam separadas entre bancos, corretoras e bolsas. Para o BIS, o crescimento acelerado desses modelos elevou o risco de que produtos vendidos como renda passiva escondam, na verdade, empréstimos corporativos sem proteção para o cliente final.
Esse ponto ganha peso em um momento em que stablecoins, serviços de yield e produtos híbridos voltaram ao centro do debate regulatório. Como mostramos na matéria sobre o alerta do BIS para a fragmentação nas regras de stablecoins, autoridades globais vêm reforçando a ideia de que o setor precisa de padrões mais claros para evitar arbitragem regulatória.
Segundo o texto, o principal problema é a assimetria entre promessa e risco. Embora o marketing frequentemente aproxime esses produtos de contas remuneradas, o cliente acaba com uma exposição sem garantia contra a própria plataforma. O BIS cita que, em muitos casos, o usuário perde inclusive o controle direto sobre os ativos depositados.
FTX e Celsius seguem como referência do risco estrutural
Para sustentar o alerta, o relatório retoma os colapsos de Celsius e FTX como exemplos de como alavancagem, opacidade e uso agressivo dos depósitos podem se transformar rapidamente em perdas para clientes. Não por acaso, o tema continua vivo no mercado. O caso da FTX ainda segue gerando desdobramentos, como mostramos quando o ex-diretor Nishad Singh fechou acordo com a CFTC.
Na visão do BIS, a lição central desses episódios é que a combinação entre falta de transparência e múltiplas linhas de negócio dentro da mesma empresa amplia o risco sistêmico. O documento também relembra o colapso da Celsius, cuja crise virou um marco para o segmento de crédito cripto, ao mostrar o que acontece quando depósitos de clientes são usados em estratégias mais arriscadas sem colchão de proteção.
O alerta aparece enquanto reguladores de diferentes países apertam o cerco sobre exchanges e custodiante de cripto. No Brasil, por exemplo, o Banco Central já vem detalhando exigências para o setor, como reportamos na cobertura sobre as regras para instituições operarem com cripto e os riscos para exchanges.
Por que isso importa para o investidor
O recado do BIS é direto, produtos com alto rendimento no mercado cripto podem carregar um risco muito maior do que o nome sugere. Para quem usa exchanges centralizadas, a discussão reforça a importância de entender se os ativos ficam segregados, se há clareza sobre o uso dos fundos e qual é a real natureza jurídica do produto oferecido.
Para o mercado, o relatório aumenta a pressão por regras mais objetivas sobre capital, disclosure e proteção ao investidor. Para o varejo, a mensagem é ainda mais simples, rendimento elevado continua exigindo leitura cuidadosa da contraparte, especialmente quando a plataforma atua ao mesmo tempo como exchange, credora e formadora de mercado.
O relatório completo do BIS foi publicado nesta quinta-feira no site da instituição e amplia a pressão sobre o setor em um momento de retomada do interesse por produtos de rendimento em cripto.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





