O USDT, da Tether, superou brevemente o Ethereum em valor de mercado nesta sexta-feira, em um sinal claro de busca por dólar digital durante a queda do mercado. O ETH recuperou a segunda posição depois, mas o episódio reforça a força das stablecoins quando o apetite por risco diminui.
O USDT superou brevemente o Ethereum em valor de mercado nesta sexta-feira (26), tornando-se por instantes o segundo maior criptoativo do mercado. O movimento ocorreu enquanto o ETH recuava para a faixa de US$ 1.500 e a capitalização da stablecoin da Tether rondava US$ 186 bilhões.
O episódio não durou muito: dados de mercado consultados depois do movimento mostravam o Ethereum novamente acima do USDT, com cerca de US$ 191 bilhões em valor de mercado, contra aproximadamente US$ 186 bilhões da stablecoin. Ainda assim, a virada temporária é relevante porque mostra uma rotação defensiva dentro do próprio mercado cripto.
Stablecoin ganha espaço em meio ao sell-off
Segundo a Cointelegraph, o valor de mercado do Ether caiu abaixo de US$ 185 bilhões após uma queda de 5,2% em 24 horas, permitindo que o USDT assumisse momentaneamente a segunda posição. A própria publicação também registrou o cruzamento em sua conta no X, com USDT perto de US$ 186,06 bilhões e ETH ao redor de US$ 185,66 bilhões.
https://x.com/Cointelegraph/status/2070334347261902848
Na prática, a leitura é simples: quando o mercado reduz risco, parte do capital sai de ativos voláteis e fica estacionada em stablecoins. Como o USDT acompanha o dólar, sua capitalização cresce principalmente quando há emissão líquida e demanda por liquidez, enquanto o valor de mercado do Ethereum depende diretamente do preço do ETH.
Esse contraste ajuda a explicar por que a stablecoin avançou mesmo em um dia ruim para criptoativos. O mesmo ambiente de aversão ao risco já vinha pressionando o mercado, como o CriptoBR mostrou na matéria sobre o Bitcoin testando US$ 59 mil e liquidações próximas de US$ 1 bilhão.
Ethereum recupera a posição, mas o alerta fica
A recuperação do segundo lugar pelo Ethereum reduz o impacto imediato do flip, mas não elimina o sinal de mercado. O ETH segue como a principal rede de contratos inteligentes, base de grande parte do ecossistema DeFi, de tokens e de infraestrutura on-chain. O problema é que, em momentos de queda, a tese de longo prazo pesa menos do que a necessidade de liquidez.
Esse ponto também conversa com temas recentes do ecossistema. A Fundação Ethereum passou por mudanças internas, como reportado na matéria sobre a reestruturação com corte de 20% da equipe, enquanto grandes carteiras continuaram tentando aproveitar quedas do ETH, como visto no acúmulo de US$ 2 bilhões por baleias do Ethereum.
Do lado das stablecoins, a força do USDT reforça uma tendência mais ampla: dólares tokenizados estão deixando de ser apenas ferramenta de trading e virando uma camada central de liquidez do mercado. O CriptoBR também acompanhou movimentos nessa direção, como a entrada de US$ 150 milhões em stablecoins da Spark na Uniswap v4 e o aumento do colchão financeiro da Tether no primeiro trimestre.
O que muda para o investidor
Para traders, o flip temporário funciona como termômetro de cautela. Quando uma stablecoin ultrapassa um ativo como Ethereum, o mercado está dizendo que preservação de capital e liquidez em dólar ganharam prioridade sobre exposição a beta cripto.
Para investidores de longo prazo, o ponto é diferente. O episódio não significa que o Ethereum perdeu relevância tecnológica, mas mostra que a narrativa de infraestrutura precisa competir com uma realidade de mercado mais dura: em períodos de estresse, stablecoins capturam demanda porque reduzem volatilidade sem obrigar o usuário a sair do ambiente cripto.
A leitura mais equilibrada é tratar o movimento como um alerta, não como uma sentença. Se o ETH recuperar preço e fluxo, a distância para o USDT volta a aumentar. Se a pressão continuar, a capitalização das stablecoins pode seguir encostando nos principais criptoativos e mudar a forma como o ranking de mercado é interpretado.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





