A SEC acusou Nathan Fuller, do Texas, de levantar cerca de US$ 12,3 milhões com a promessa de bots de IA para arbitragem cripto. Segundo o regulador, só 3% dos recursos foram usados para comprar criptoativos, enquanto milhões teriam bancado gastos pessoais e pagamentos no estilo Ponzi.
A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) acusou Nathan Fuller, residente de Cypress, no Texas, de captar aproximadamente US$ 12,3 milhões de cerca de 150 investidores em um suposto esquema cripto baseado em bots de negociação com inteligência artificial.
O caso importa porque junta duas narrativas que seguem fortes no varejo: arbitragem cripto e IA. De acordo com o comunicado da SEC, Fuller prometia que ferramentas proprietárias fariam operações de alta frequência em plataformas de criptoativos, com retornos de 40% a 50% em 30 a 45 dias e, em alguns casos, ganhos superiores a 100% em apenas 21 dias.
O que a SEC alega
A denúncia foi protocolada no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Sul do Texas em 28 de maio. Segundo o regulador, Fuller atuava por meio da Privvy Investments LLC e dos nomes comerciais Privvy Investments e Gateway Digital Investments, vendendo participações passivas em uma suposta operação de arbitragem cripto entre pelo menos outubro de 2022 e meados de 2024.
A SEC afirma que as garantias apresentadas aos investidores eram falsas. O órgão diz que Fuller alegava ter licença de transmissor de dinheiro, cobertura por fiança, seguro FDIC e apólice de responsabilidade profissional. Na prática, segundo a acusação, os bots não funcionavam como descrito e não geraram os lucros prometidos.
O detalhe mais sensível é o uso real do dinheiro. A SEC diz que apenas cerca de US$ 380 mil, ou aproximadamente 3% dos valores captados, foram usados para comprar criptoativos. Ainda assim, essas negociações teriam ocorrido sem os bots anunciados e sem lucro.
O restante, segundo o processo, teria seguido outro caminho: ao menos US$ 6,2 milhões teriam sido desviados para despesas pessoais, incluindo casa, apostas, viagens e veículos. Outros US$ 5,5 milhões teriam sido usados para pagamentos a investidores anteriores, em uma dinâmica descrita pela SEC como semelhante a um esquema Ponzi.
IA virou argumento de venda para golpes
O caso reforça um alerta recorrente: a presença da palavra “IA” em uma oferta de investimento não prova automação real, gestão de risco ou capacidade de gerar retorno. A SEC também afirma que Fuller teria usado extratos falsos e correspondências fabricadas de entidades inexistentes para acalmar investidores quando os pedidos de saque aumentaram.
Segundo o CoinDesk, a acusação também menciona uma carta supostamente gerada por IA em nome de uma firma de auditoria fictícia, dizendo que contas de investidores estavam em análise e depois seriam liquidadas em um trust.
Esse ponto conversa com outra frente regulatória recente. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre regras da SEC para mercados onchain e IA financeira, o uso de automação e modelos generativos em produtos financeiros virou uma área de atenção para supervisores.
Por que o investidor deve olhar além da promessa
Promessas de retorno fixo em prazos curtos são um sinal de alerta clássico, especialmente quando aparecem junto de termos difíceis de verificar, como arbitragem proprietária, bot de alta frequência, seguro de capital e garantia de lucro. Em cripto, a liquidez é global e rápida, mas isso não elimina risco operacional, risco de contraparte e risco de fraude.
O episódio também se conecta ao avanço de ferramentas de monitoramento contra golpes. Em maio, o CriptoBR reportou que a Binance diz usar IA para bloquear bilhões de dólares em tentativas de fraude. A diferença central é verificabilidade: quando a tecnologia é usada de verdade por uma plataforma, há processos, métricas e auditoria; quando aparece apenas como promessa de retorno, o investidor precisa redobrar a checagem.
A SEC acusa Fuller de violar dispositivos antifraude e de registro das leis federais de valores mobiliários. O regulador pede injunções permanentes, devolução de ganhos ilícitos com juros, penalidades civis e restrição contra participação em ofertas de valores mobiliários.
Para o leitor brasileiro, a lição prática é simples: antes de enviar dinheiro para qualquer estratégia automatizada, vale exigir documentação verificável, custódia clara, histórico auditável e explicação objetiva de onde vem o retorno. Se a tese depende de lucro garantido, urgência para entrar e tecnologia que ninguém consegue demonstrar, o risco pode estar menos no mercado e mais na própria oferta.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





