A Charles Schwab prepara, em parceria com a Cboe, contratos de previsão sobre o S&P 500 em formato de “sim ou não”. A entrada de uma corretora tradicional amplia a disputa por mercados de previsão, setor que já atrai nomes como Kalshi, Polymarket, Coinbase e Robinhood.
A Charles Schwab está preparando sua entrada nos mercados de previsão com contratos ligados ao S&P 500, em parceria com a Cboe Global Markets. Segundo informações publicadas pelo CoinDesk, com base em reportagem do Wall Street Journal, a oferta permitiria que clientes apostassem em resultados objetivos do índice, como o fechamento acima ou abaixo de um determinado nível.
O movimento importa porque leva uma das maiores plataformas de corretagem dos Estados Unidos para um segmento que, até pouco tempo atrás, era dominado por nomes mais próximos do universo cripto e de fintechs, como Polymarket e Kalshi. A Schwab não está propondo mercados sobre política, esportes ou entretenimento. A estratégia inicial é manter o produto em eventos financeiros verificáveis, uma escolha que reduz atrito regulatório e aproxima o modelo do mercado tradicional de opções.
Como o produto da Schwab funcionaria
De acordo com a reportagem, os contratos planejados teriam estrutura parecida com opções binárias: o investidor recebe um valor fixo caso o resultado previsto se confirme, ou nada caso o evento não aconteça. Na prática, o usuário poderia tomar uma posição simples sobre um resultado do S&P 500 sem montar uma operação tradicional com opções mais complexas.
A Schwab e a Cboe também discutem uma variação ligada ao recurso “Plus Zone”, em que o trader poderia receber pagamento parcial se a previsão ficasse próxima do resultado final. Esse desenho tenta combinar a simplicidade dos mercados de previsão com a infraestrutura já conhecida de bolsas reguladas.
A previsão é que o produto chegue aos clientes da Schwab nos próximos meses. A corretora e a Cboe também avaliam expandir o modelo para outros índices ou benchmarks financeiros, embora a aposta inicial seja manter a linha restrita a eventos de mercado com resultado claro.
Por que isso conversa com cripto
Mercados de previsão ganharam força no ecossistema cripto porque transformam expectativas em contratos negociáveis. A Polymarket popularizou esse formato com mercados sobre eventos políticos, econômicos e culturais, enquanto a Kalshi avançou nos Estados Unidos com uma estrutura regulada. Mais recentemente, o setor voltou ao radar após a CFTC abrir caminho para Polymarket e Kalshi nos EUA, reforçando a disputa por produtos baseados em eventos.
A entrada de uma corretora tradicional muda o tom da competição. Em vez de o mercado institucional apenas observar a inovação vindo de plataformas cripto, Schwab e Cboe tentam adaptar a lógica dos mercados de previsão para instrumentos financeiros já familiares ao investidor americano.
Esse movimento também acontece em paralelo à aproximação de outras empresas de varejo. O CoinDesk citou que Coinbase e Robinhood já introduziram ofertas ligadas a mercados de previsão. Para o usuário cripto, isso sinaliza que a categoria deixou de ser apenas uma vertical de nicho e passou a disputar espaço dentro de aplicativos financeiros de massa.
Disputa por liquidez e regulação
A grande questão agora é quem conseguirá combinar liquidez, clareza regulatória e uma experiência simples. Plataformas cripto têm vantagem em velocidade, variedade de mercados e cultura de negociação 24/7. Corretoras tradicionais, por outro lado, têm bases de clientes enormes, reputação institucional e canais regulatórios mais consolidados.
Essa diferença explica por que o setor está fragmentado. A Binance Wallet integrou a Predict.fun à BNB Chain, mirando uma experiência sem gas para usuários on-chain. Já a Hyperliquid preparou um rival da Polymarket com taxa zero, apostando no público nativo de derivativos e DeFi.
A Schwab entra por outro caminho: contratos financeiros, dentro de uma corretora estabelecida e com a Cboe como parceira. Se a adoção for forte, o efeito pode ser duplo. De um lado, valida a tese de que eventos podem virar instrumentos negociáveis para o grande público. De outro, aumenta a pressão competitiva sobre plataformas cripto que ainda dependem de narrativas mais abertas e, em alguns casos, de ambientes regulatórios menos definidos.
O que observar daqui em diante
O ponto central será a recepção dos clientes da Schwab. Se contratos simples sobre índices atraírem volume, outras corretoras podem acelerar produtos semelhantes. Isso colocaria mercados de previsão ao lado de ações, ETFs, opções e cripto dentro do mesmo aplicativo financeiro.
Para o setor cripto, a leitura é pragmática: a categoria está amadurecendo, mas a vantagem de pioneirismo não garante domínio. A disputa agora envolve distribuição, confiança e capacidade de operar dentro de regras claras. Quem resolver esses três pontos primeiro tende a capturar a próxima onda de usuários.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





