A Ripple estaria liderando uma captação de pelo menos US$ 1 bilhão para criar uma companhia pública focada em acumular XRP, segundo reportagem atribuída à Bloomberg. Se avançar, a estrutura testará se a tese de tesourarias cripto ainda atrai capital institucional fora do Bitcoin.
A Ripple Labs estaria liderando uma captação de pelo menos US$ 1 bilhão para montar uma nova tesouraria pública dedicada ao XRP. A operação, reportada pela Bloomberg e repercutida pelo CoinDesk, seria estruturada por meio de uma SPAC e teria como objetivo criar um veículo de mercado aberto para acumular o token.
O movimento importa porque leva para o XRP uma estratégia que ganhou força em 2025 com empresas listadas comprando criptoativos para seus balanços. Só que o teste chega em um momento menos confortável: o mercado de tesourarias digitais esfriou, investidores passaram a questionar prêmios excessivos sobre ativos em caixa e o apetite por risco caiu nas últimas semanas.
Como seria a estrutura
Segundo a reportagem, a Ripple pretende levantar o capital por meio de uma companhia de aquisição de propósito específico, conhecida como SPAC. Os recursos ficariam em uma nova empresa de tesouraria focada em XRP, enquanto a própria Ripple também contribuiria com parte dos tokens que já mantém em seus balanços.
Os termos ainda estariam em discussão e podem mudar. A empresa não confirmou publicamente a operação até a publicação desta matéria. Por isso, o ponto central para o investidor é separar o sinal institucional do risco de execução: o plano indica ambição, mas ainda depende de estrutura final, demanda de mercado e condições regulatórias.
Se concluída, a iniciativa seria uma das maiores tesourarias conhecidas focadas exclusivamente em XRP. Hoje, o token segue entre os maiores criptoativos por valor de mercado, mas ainda não teve o mesmo volume de companhias acumuladoras que o Bitcoin atraiu nos últimos ciclos.
Por que isso afeta o XRP
Uma companhia pública com mandato para comprar XRP poderia criar um comprador institucional recorrente para o ativo. Também daria à Ripple uma nova forma de alocar parte de seus próprios tokens com investidores, em vez de depender apenas de vendas diretas, programas de liquidez ou liberações mensais do escrow.
A Ripple informa em seu site que suas participações em XRP são divididas entre tokens disponíveis em carteiras e tokens travados em escrows on-chain com liberações mensais. Esse desenho sempre foi uma das discussões centrais da tokenomics do XRP: a previsibilidade ajuda na transparência, mas o tamanho das reservas da companhia continua sendo monitorado de perto pelo mercado.
O CriptoBR já acompanhou movimentos institucionais ligados ao ecossistema, como a liquidação de Treasuries no XRPL em parceria com Ondo, JPMorgan e Ripple. A nova tese de tesouraria, se confirmada, adicionaria uma camada diferente: não apenas uso de infraestrutura, mas acumulação direta do token por uma empresa de capital aberto.
Tesourarias cripto perderam parte do brilho
O timing é sensível. A estratégia de empresas comprarem criptoativos para reforçar o balanço funcionou melhor quando o mercado pagava múltiplos altos por exposição indireta aos tokens. Com a volatilidade recente, esse prêmio ficou menos garantido.
Companhias associadas à tese de acumulação, como Strategy e Metaplanet, sofreram pressão nos últimos meses conforme o mercado cripto ficou mais lateralizado. Isso não invalida a tese, mas reduz a margem para narrativas simples. Para o XRP, a pergunta passa a ser se há demanda institucional suficiente para sustentar uma estrutura bilionária sem transformar o veículo apenas em uma aposta alavancada no preço do token.
Também há um fator competitivo. Em maio, a VivoPower anunciou uma captação de US$ 121 milhões para pivotar sua estratégia para investimentos em XRP. Uma operação de US$ 1 bilhão liderada pela Ripple colocaria a própria emissora do ecossistema no centro desse movimento e elevaria a barra para outros veículos focados no ativo, em uma fase em que a Ripple também tenta ampliar sua presença em stablecoins e infraestrutura multiativos.
O que observar agora
O primeiro ponto é a confirmação formal da operação. Sem anúncio oficial, a notícia ainda deve ser tratada como uma negociação em andamento. O segundo é a estrutura: investidores precisarão saber quanto virá em dinheiro novo, quanto será contribuição de XRP pela Ripple e quais regras limitarão vendas futuras.
O terceiro ponto é o contexto regulatório. O avanço do Clarity Act nos EUA já ajudou o XRP a liderar altas recentes, mas tesourarias públicas de cripto exigem governança, disclosure e clareza sobre riscos de mercado. Uma captação desse tamanho só tende a ganhar tração se o investidor institucional enxergar mais que exposição especulativa.
Para holders de XRP, a leitura é dupla. Um veículo bilionário pode melhorar a percepção de demanda institucional e criar uma nova narrativa de acumulação. Ao mesmo tempo, a participação da Ripple com seus próprios tokens reacende perguntas antigas sobre concentração, liquidez e influência da empresa no mercado do ativo.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





