A Ripple afirma que o mercado institucional de pagamentos com stablecoins já virou multiativo, com empresas usando RLUSD, USDC, USDT, EURC e moedas locais conforme cada corredor. Para a companhia, a disputa deixa de ser escolher uma stablecoin vencedora e passa a ser operar uma infraestrutura flexível entre ativos, moedas fiduciárias e regras regionais.
A Ripple afirmou que a próxima fase dos pagamentos globais com stablecoins não será dominada por um único token. Em análise publicada em 24 de abril, a empresa defendeu que bancos, fintechs e tesourarias corporativas já operam em um ambiente multiativo, combinando RLUSD, USDC, USDT, EURC, stablecoins locais e moedas fiduciárias de acordo com exigências regulatórias, preferência de contraparte e disponibilidade por corredor.
O argumento chega em um momento em que stablecoins ganharam força como infraestrutura de liquidação, não apenas como produto nativo do mercado cripto. Segundo a Ripple, o volume global de transações com stablecoins chegou a US$ 33 trilhões em 2025, acima do volume global de cartões de crédito, e parte relevante desse fluxo já está em plataformas de pagamento em produção.
Mercado já não gira em torno de uma stablecoin só
Para a Ripple, a principal mudança é estrutural: empresas que movimentam pagamentos internacionais não querem ficar presas a um emissor ou a um único ativo. Um corredor pode exigir uma stablecoin regulada localmente; outro pode depender de USDC ou USDT por liquidez; e uma operação europeia pode precisar de ativos compatíveis com o regime MiCA.
Na prática, isso transforma a infraestrutura de pagamentos em uma disputa por interoperabilidade. A empresa diz que plataformas desenhadas para apenas uma stablecoin podem criar gargalos em negociações com clientes institucionais, principalmente quando a contraparte usa outro custodiante, outro banco ou outra jurisdição.
O tema se conecta a uma tendência mais ampla de institucionalização das stablecoins. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre o fundo do Morgan Stanley voltado a reservas de stablecoins, bancos e gestoras vêm se aproximando da infraestrutura que sustenta a emissão, custódia e liquidação desses ativos.
Ripple usa RLUSD, mas defende infraestrutura agnóstica
Apesar de promover a RLUSD como stablecoin institucional, a Ripple afirma que sua tese não depende de forçar clientes a usarem apenas o ativo da casa. A companhia diz que sua solução de pagamentos suporta liquidação em múltiplas stablecoins e em moedas fiduciárias, com custódia, liquidez e conversão integradas.
A empresa cita operações em mais de 60 mercados e mais de US$ 100 bilhões em volume processado em pagamentos internacionais. Também destaca o caso do AMINA Bank, banco suíço regulado pela FINMA, que adotou a Ripple Payments para fluxos quase em tempo real envolvendo trilhos fiduciários e stablecoins.
Essa abordagem reforça a estratégia da Ripple de se posicionar como fornecedora de infraestrutura para instituições financeiras, não apenas como empresa ligada ao XRP. Recentemente, o CriptoBR também cobriu os testes da Ripple e da Kyobo para liquidação de títulos na Coreia, outro exemplo de uso institucional de trilhos blockchain.
Por que isso importa para o mercado cripto
A leitura da Ripple é que stablecoins estão deixando de ser uma camada paralela e se tornando parte do back-end financeiro. Isso aumenta a demanda por compliance, auditoria, conversão de ativos e integração com bancos — pontos que importam para empresas que não podem depender de processos manuais ou de liquidez fragmentada.
Também há um risco: quanto mais o mercado se torna institucional, maior a pressão por padronização regulatória. A Ripple cita a MiCA na Europa e a legislação norte-americana sobre stablecoins como fatores que aceleram decisões de infraestrutura. Empresas que adiarem a integração podem acabar entrando em 2026 e 2027 sob pressão competitiva, com parceiros e volumes já concentrados em plataformas rivais.
O movimento não se limita à Ripple. A expansão de stablecoins em redes públicas, como mostrou a cobertura sobre o salto de quase 200% das stablecoins na BNB Chain, indica que a liquidez está se espalhando por diferentes ecossistemas. A diferença é que, no mercado corporativo, a pergunta principal não é qual rede cresce mais rápido, mas qual infraestrutura consegue liquidar com segurança em várias redes, ativos e jurisdições.
Para o leitor, o ponto central é simples: stablecoins estão virando trilhos de pagamento reais. Se a tese da Ripple estiver correta, a próxima disputa não será apenas entre USDT, USDC ou RLUSD, mas entre plataformas capazes de conectar todos esses ativos ao sistema financeiro tradicional sem reconstruir a pilha a cada nova regra ou corredor.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





