Uma juíza federal bloqueou temporariamente a lei de Minnesota que proibiria mercados de previsão como Kalshi e Polymarket US a partir de 1º de agosto. A decisão reforça, por enquanto, a tese de que contratos de evento em bolsas registradas entram na jurisdição federal da CFTC, mas deixa aberta a discussão sobre quais produtos realmente são swaps.
Uma juíza federal dos Estados Unidos barrou temporariamente a aplicação da lei de Minnesota contra mercados de previsão, impedindo que o estado criminalize a operação de plataformas como Kalshi e Polymarket US enquanto o processo segue no mérito. A decisão foi assinada em 27 de julho pela juíza Katherine Menendez, poucos dias antes de a regra estadual entrar em vigor em 1º de agosto.
O caso importa porque virou um teste direto sobre quem manda nesse mercado: os estados, pela ótica de apostas e jogos, ou a CFTC, pela ótica de derivativos e contratos de evento. A disputa também se conecta à corrida regulatória que já vinha ganhando força, como mostramos na matéria sobre a CFTC apertando regras para mercados de previsão.
O que a decisão mudou
Na ordem judicial, Menendez concedeu liminar preliminar aos autores dos três processos relacionados: a própria CFTC, a KalshiEX LLC e a QCX LLC, que opera como Polymarket US. A juíza concluiu, nesta fase inicial, que os autores demonstraram chance de sucesso em parte de seus argumentos de preempção federal, além de risco de dano irreparável caso a lei estadual passasse a valer.
Na prática, Minnesota fica impedido de aplicar o estatuto contra entidades registradas como designated contract markets, ou DCMs, na CFTC. Esses mercados são bolsas autorizadas a listar determinados contratos sob supervisão federal. Kalshi e Polymarket argumentam que seus contratos de evento fazem parte desse arcabouço e não podem ser desmontados estado por estado.
A lei de Minnesota foi desenhada para proibir a criação, operação, controle, gerenciamento e publicidade de mercados de previsão no estado. Segundo a CFTC, a regra poderia transformar operadores e participantes em criminosos e teria alcance amplo, inclusive sobre contratos ligados a clima e agricultura.
Derivativo ou aposta?
Esse é o centro da briga. Mercados de previsão permitem comprar posições do tipo “sim” ou “não” sobre eventos futuros, de eleições e esportes a indicadores econômicos. Para os defensores do setor, isso cria instrumentos financeiros úteis para hedge, informação de mercado e precificação de risco. Para reguladores estaduais, muitos desses produtos se parecem com apostas tradicionais vendidas com embalagem financeira.
A liminar não encerra essa disputa. Pelo contrário: a própria decisão sinaliza que nem todos os contratos listados por Kalshi e Polymarket necessariamente se encaixam na definição legal de swap. Isso significa que uma eventual decisão final pode ser mais estreita, protegendo apenas parte dos produtos ou exigindo uma análise contrato por contrato.
Esse ponto é importante para o mercado cripto porque o Polymarket nasceu como uma das principais aplicações on-chain de mercados de previsão e tenta consolidar presença regulada nos EUA. O tema já vinha aparecendo em outras frentes, incluindo o avanço da CFTC sobre Polymarket e Kalshi nos EUA e a busca do Polymarket por novos produtos regulados, como margem.
Impacto para cripto e plataformas de previsão
A decisão de Minnesota dá fôlego para as plataformas registradas, mas não elimina o risco regulatório. A CFTC está tentando afirmar jurisdição nacional sobre contratos de evento, enquanto estados continuam pressionando com leis de jogo, proteção ao consumidor e integridade esportiva. Esse conflito tende a definir até onde plataformas como Kalshi, Polymarket, Crypto.com e outras podem ir com mercados esportivos, políticos e financeiros.
O calendário também pesou. No mesmo dia em que saiu a ordem, terminou o período de comentários da proposta da CFTC para avaliar quando contratos de evento podem ser considerados contrários ao interesse público. A NFL, por exemplo, pediu limites mais rígidos para contratos esportivos, citando risco de manipulação, dados internos e impactos sobre a integridade das competições.
Para o leitor brasileiro, a leitura prática é simples: mercados de previsão continuam crescendo, mas o modelo ainda depende de decisões judiciais e regras novas. A liminar ajuda Kalshi e Polymarket no curto prazo, mas também deixa claro que o setor terá de provar, produto por produto, onde termina o derivativo regulado e onde começa a aposta disfarçada.
O avanço dessa disputa ainda pode influenciar plataformas cripto que querem listar eventos, lançar contratos binários ou integrar dados de previsão em produtos financeiros. Como vimos no caso da Robinhood mirando contratos da Crypto.com em previsão, grandes corretoras já observam o setor como uma nova frente de receita. Agora, a pergunta é se a regulação federal conseguirá criar uma regra única antes que os estados imponham um mapa fragmentado.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





