O Sberbank, maior banco da Rússia, planeja lançar infraestrutura para negociação e custódia de criptomoedas até 1º de dezembro. O movimento acompanha uma nova lei que cria intermediários licenciados, limita o acesso público a ativos mais líquidos e mantém proibido o uso de cripto em pagamentos domésticos.
O Sberbank, maior banco da Rússia, pretende colocar de pé uma infraestrutura de negociação de criptomoedas e um depositário digital até 1º de dezembro, em mais um passo do país para trazer cripto para dentro de um perímetro regulado. A informação foi publicada pelo CoinDesk, com base em reportagem da Interfax.
O plano é relevante porque não trata apenas de uma nova plataforma de varejo. A proposta envolve registro de titularidade, custódia, depósitos, saques e liquidação, ou seja, a camada operacional que permite a bancos, corretoras e investidores qualificados negociarem ativos digitais sob supervisão estatal. Para a Rússia, que já vinha usando regras experimentais em liquidações internacionais, o avanço aproxima o mercado cripto de uma estrutura parecida com a do sistema financeiro tradicional.
Depositário digital fica no centro do plano
Segundo a reportagem, o depositário digital do Sberbank deve registrar os direitos dos clientes sobre criptomoedas e processar a maior parte das transações fora da blockchain principal. A instituição também planeja operar carteiras ativas para depósitos, retiradas e transferências solicitadas pelos clientes.
Esse desenho indica uma abordagem de mercado regulado, com forte dependência de intermediários. Em vez de deixar a negociação acontecer apenas em exchanges abertas ou carteiras autocustodiadas, o modelo russo coloca bancos, brokers, gestores, custodiante e depositários no centro da operação. É uma leitura bem diferente da tese original de desintermediação, mas alinhada ao modo como governos vêm tentando absorver cripto sem abrir mão de controle.
O tema conversa com uma agenda que já vinha aparecendo no país. O CriptoBR reportou recentemente que a Rússia avançou em um projeto para limitar cripto ao mercado licenciado, justamente com regras para participantes autorizados. Também houve pressão externa: no sábado, a União Europeia incluiu a HTX em sanções ligadas à Rússia, ampliando o cerco sobre fluxos cripto associados ao país.
Acesso público deve ficar restrito aos ativos mais líquidos
As novas regras de negociação, custódia e liquidação devem entrar em vigor em 1º de setembro. Já a exigência para que transações passem por intermediários licenciados começa a valer em julho de 2027, criando uma janela de adaptação para empresas que quiserem operar dentro do novo regime.
Para o público em geral, o acesso deve ser limitado a criptomoedas que cumpram critérios rígidos de liquidez e valor de mercado definidos pelo Banco da Rússia. O CoinDesk cita limites como capitalização média acima de 5 trilhões de rublos, cerca de US$ 64 bilhões, e volume diário médio superior a 1 trilhão de rublos, cerca de US$ 12,8 bilhões, ao longo de dois anos. Na prática, isso tende a concentrar a negociação pública em poucos ativos de grande porte, como Bitcoin e Ether, enquanto investidores qualificados teriam acesso a uma lista mais ampla.
A lei também mantém uma fronteira importante: criptomoedas continuam proibidas como forma de pagamento por bens e serviços dentro da Rússia. O uso permitido fica mais próximo de investimento, custódia, liquidação específica e operações internacionais autorizadas. Esse ponto diferencia a abertura russa de uma adoção ampla de cripto no varejo.
Rússia tenta institucionalizar cripto sem perder controle
O Sberbank já vinha se aproximando do setor. A instituição ofereceu produtos estruturados ligados a Bitcoin para investidores qualificados e concluiu um piloto de empréstimo com garantia em Bitcoin com a mineradora Intelion Data em dezembro. Esses testes ajudam a explicar por que o banco aparece como uma peça natural da nova infraestrutura.
O movimento também se encaixa em uma tendência mais ampla de tokenização, custódia bancária e uso controlado de ativos digitais por instituições. No Brasil, por exemplo, a B3 registrou crédito com vacas tokenizadas, mostrando que ativos digitais e infraestrutura financeira tradicional estão se cruzando fora do eixo puramente especulativo.
Para investidores, o ponto central é que a Rússia parece menos interessada em liberar cripto como dinheiro do dia a dia e mais focada em criar trilhos estatais para negociação, custódia e liquidação. Isso pode aumentar a participação institucional local, mas também reduz o espaço para plataformas sem licença e para ativos de menor liquidez no mercado público.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





