A Microsoft apresentou o Majorana 2, um chip quântico que, segundo a empresa, tem qubits 1.000 vezes mais confiáveis e pode encurtar o caminho para computadores quânticos escaláveis até 2029. Para o Bitcoin, o avanço não significa risco imediato, mas aumenta a pressão para que a indústria trate criptografia pós-quântica como pauta de engenharia, não como teoria distante.
A Microsoft reacendeu nesta semana uma das discussões mais sensíveis para o Bitcoin: o avanço da computação quântica. A empresa apresentou o Majorana 2, seu novo chip quântico topológico, com a promessa de qubits 1.000 vezes mais confiáveis que a geração anterior e uma rota mais curta para um computador quântico escalável até 2029.
A notícia importa para o mercado cripto porque blockchains como Bitcoin e Ethereum dependem de assinaturas digitais para provar a posse dos fundos. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia, em tese, atacar esse tipo de criptografia. A ressalva é importante: o anúncio da Microsoft não quer dizer que esse ataque seja possível hoje, nem que carteiras de Bitcoin estejam sob ameaça imediata.
O que a Microsoft anunciou
Segundo a Microsoft, o Majorana 2 usa uma nova pilha de materiais e consegue manter o estado quântico por uma média de 20 segundos, com alguns testes chegando a um minuto. A empresa também afirma que as operações ocorrem na casa de um microssegundo e que o novo desenho coloca sua equipe no caminho de entregar uma máquina comercialmente útil até 2029.
Outro ponto central do anúncio é o uso de IA agentiva no processo de pesquisa. A Microsoft diz que sua plataforma Discovery ajudou a organizar dados de quase duas décadas de experimentos, automatizar medições, detectar falhas de fabricação e acelerar ajustes nos dispositivos quânticos.
Em termos práticos, a empresa está dizendo que reduziu um dos maiores gargalos da computação quântica: a instabilidade dos qubits. Essa instabilidade é o motivo pelo qual máquinas quânticas atuais ainda são muito distantes do tipo de computador capaz de quebrar criptografia usada em escala global.
Por que isso conversa com Bitcoin
O Bitcoin usa assinaturas digitais para autorizar transações. A preocupação de longo prazo é que um computador quântico tolerante a falhas rode algoritmos capazes de derivar uma chave privada a partir de uma chave pública exposta. Esse cenário é mais relevante para endereços antigos, reutilizados ou com chaves públicas já visíveis na blockchain.
O debate não é novo. O CriptoBR já acompanhou propostas e alertas sobre proteção pós-quântica, incluindo a discussão sobre Bitcoins antigos vulneráveis a ataque quântico e a BIP 361, que reacendeu o debate sobre congelar moedas vulneráveis. Também há movimentos fora do Bitcoin, como a pesquisa do XRP Ledger para resistência pós-quântica até 2028.
O ponto técnico é que a distância entre um chip promissor e uma máquina capaz de comprometer assinaturas digitais ainda é enorme. Estudos e explicadores do setor apontam que a ameaça depende de qubits lógicos estáveis, correção de erros em larga escala e tempo de execução suficiente para atacar chaves reais. O Majorana 2 melhora a narrativa de progresso, mas não elimina esses requisitos.
Sem pânico, mas com prazo mais concreto
A leitura mais sóbria é que a Microsoft colocou mais pressão no calendário. Se grandes empresas de tecnologia falam em sistemas quânticos escaláveis nesta década, desenvolvedores, custodiantes, exchanges e empresas de infraestrutura cripto precisam tratar migração pós-quântica como planejamento de segurança.
Para usuários comuns, a recomendação segue menos dramática: evitar reutilização de endereços, acompanhar atualizações de carteiras e entender que a maior parte da segurança do Bitcoin ainda está intacta. O risco quântico é estrutural, não operacional no curto prazo.
O alerta real é de governança. Atualizar criptografia em uma empresa é difícil; atualizar uma rede descentralizada, com consenso social e econômico, é mais complexo. Quanto mais cedo o debate técnico avançar, menor a chance de o mercado precisar reagir sob pressão quando computadores quânticos deixarem de ser uma promessa de laboratório.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





