Relatório do Bernstein projeta que os mercados de previsão podem movimentar cerca de US$ 1 trilhão por ano até 2030. A tese combina avanço regulatório nos EUA, integração com infraestrutura cripto e a distribuição de plataformas como Robinhood e Coinbase, o que pode levar esse nicho para mais perto do mercado financeiro tradicional.
Os mercados de previsão podem deixar de ser um nicho ligado a apostas e virar uma nova frente de crescimento para o setor financeiro e cripto. Em relatório publicado nesta semana, o banco Bernstein estimou que esse mercado pode atingir cerca de US$ 1 trilhão em volume anual até 2030, impulsionado por maior clareza regulatória, tokenização e integração com trilhos cripto.
A leitura do banco é que o segmento já acelerou em 2026. Segundo o relatório, Kalshi e Polymarket somam cerca de US$ 60 bilhões em volume no ano até agora, acima dos US$ 51 bilhões registrados por todo o setor em 2025. Na prática, isso reforça a visão de que os contratos baseados em eventos, como política, esportes, macroeconomia e ativos digitais, estão ganhando espaço como instrumentos de especulação e também de hedge.
Por que o mercado pode crescer tão rápido
O Bernstein projeta volume de aproximadamente US$ 240 bilhões já em 2026, o que implicaria um ritmo de expansão muito acima do observado em segmentos mais maduros de trading. Para os analistas, a combinação entre regulação federal mais clara nos EUA e liquidez global via infraestrutura blockchain cria um ambiente mais favorável para esses produtos.
Hoje, esportes representam a maior parte das operações, com cerca de 62% do volume, mas essa fatia deve cair ao longo dos próximos anos. A expectativa é que mercados ligados a cripto, economia, política e eventos corporativos passem a capturar uma parcela maior da demanda, inclusive de agentes institucionais interessados em exposição mais direta a eventos específicos.
Esse movimento também conversa com a aproximação entre finanças tradicionais e infraestrutura digital. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a parceria entre Coinbase e Fannie Mae para hipotecas com Bitcoin como garantia, grandes plataformas vêm expandindo sua atuação para além da compra e venda de cripto. Já a aquisição da Bitstamp pela Robinhood reforçou a estratégia da corretora de ampliar sua presença internacional e diversificar receitas.
Robinhood e Coinbase aparecem como principais beneficiadas
Na visão do Bernstein, Robinhood e Coinbase despontam como os principais nomes listados em bolsa para capturar essa tendência. A Robinhood já teria um ritmo anualizado de US$ 350 milhões em receita com mercados de previsão, enquanto a Coinbase entrou no segmento por meio da Kalshi, ampliando o acesso a contratos em escala nacional.
O ponto central aqui é distribuição. Em vez de depender apenas de plataformas nativas do nicho, o setor pode crescer mais rápido se for plugado em aplicativos que já concentram milhões de usuários e relacionamento com investidores. Isso reduz custo de aquisição, aumenta liquidez e acelera a criação de novos contratos.
Ao mesmo tempo, o cenário não é totalmente livre de risco. Ainda existem disputas entre reguladores estaduais e autoridades federais sobre quem deve supervisionar esse tipo de mercado. Esse embate já apareceu em outras frentes do setor, como mostramos na análise sobre como a regulação pode abrir espaço para a expansão da criptoeconomia. Para o Bernstein, porém, a tendência de médio prazo segue positiva.
Se a projeção se confirmar, os mercados de previsão podem se consolidar como uma ponte entre o universo cripto e o mercado financeiro tradicional. Mais do que uma moda passageira, o segmento começaria a ser tratado como uma nova categoria de ativos baseada em informação, liquidez global e reação rápida a eventos do mundo real.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





