O Irã passou a cobrar pedágios de navios no Estreito de Ormuz com opção de pagamento em Bitcoin e moedas digitais, segundo relatórios da TRM Labs e da Chainalysis. A medida amplia o uso de cripto em rotas de comércio sensíveis e adiciona risco regulatório para empresas de navegação e para o mercado de stablecoins.
O Irã está aceitando pagamentos em Bitcoin e outras moedas digitais de embarcações que cruzam o Estreito de Ormuz, segundo análises publicadas por TRM Labs e Chainalysis nos últimos dias. As empresas de inteligência blockchain afirmam que o modelo vem sendo usado pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como parte de um sistema de pedágio para liberar a passagem de navios em uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
De acordo com os relatórios, as taxas negociadas podem começar em cerca de US$ 1 por barril de petróleo, com custo total de até US$ 2 milhões por embarcação em alguns casos. O ponto central para o mercado cripto é que o episódio mostra um uso estatal de ativos digitais como infraestrutura de arrecadação em comércio internacional, algo que eleva a pressão sobre emissores de stablecoins, armadores e reguladores.
Como funciona o pedágio em cripto no Estreito de Ormuz
A TRM Labs diz que operadores de navios precisam contatar um intermediário ligado ao IRGC, enviar dados da embarcação, carga e destino, e então negociar o valor da taxa. O pagamento pode ser feito em yuan chinês ou em moedas digitais. A Chainalysis afirmou que fontes citadas por veículos internacionais e representantes do setor energético iraniano mencionaram especificamente o Bitcoin, embora a empresa avalie que stablecoins possam ganhar espaço por oferecerem liquidação mais previsível em operações recorrentes.
Na prática, isso cria uma nova frente para o uso de cripto em fluxos ligados a sanções e comércio internacional. Como mostramos na matéria sobre a corrida de traders de commodities para stablecoins durante a crise com o Irã, ativos digitais já vinham sendo usados como alternativa de liquidação em momentos de estresse geopolítico. Agora, o uso avança de proteção de caixa para cobrança de passagem em uma rota estratégica.
Segundo a Chainalysis, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito negociados globalmente passam pelo Estreito de Ormuz. Isso ajuda a explicar por que a adoção de cripto nesse contexto chamou tanta atenção: qualquer mudança operacional ali pode afetar fretes, energia e percepção de risco em mercados globais.
Por que o mercado deve prestar atenção
Para o setor cripto, o caso mistura adoção com risco reputacional. O uso de Bitcoin ou stablecoins em um pedágio desse tipo reforça a tese de que ativos digitais podem operar fora da infraestrutura financeira tradicional, mas também aumenta a chance de pressão por bloqueios, monitoramento on-chain e sanções direcionadas a carteiras associadas ao esquema.
A Chainalysis afirma que o histórico recente do IRGC indica preferência por stablecoins em operações de maior escala, devido à menor volatilidade e à liquidez baseada em dólar. Isso dialoga com a disputa global por meios de liquidação digitais, tema que também apareceu na nossa cobertura sobre a visão da Circle para uma stablecoin em yuan. Em paralelo, produtos de pagamento seguem avançando, como no caso da carteira da Tether voltada a pagamentos com USDT e Bitcoin.
Por enquanto, ainda há incerteza sobre a extensão exata do uso de Bitcoin frente às stablecoins e sobre quanto desse fluxo já foi processado em blockchain pública. Mesmo assim, os relatórios convergem em um ponto: o episódio marca uma nova fase na relação entre cripto, logística global e sanções internacionais.
Se o modelo persistir, a tendência é que governos, empresas de análise blockchain e emissores de stablecoins ampliem a vigilância sobre carteiras e intermediários ligados à operação. Para investidores, o caso importa menos pelo volume imediato e mais pelo precedente que cria para o uso soberano de cripto em gargalos do comércio mundial.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





