A guerra envolvendo o Irã está elevando o risco de compliance no comércio global e afastando bancos de fluxos ligados a commodities. Com isso, traders e financiadores estão recorrendo cada vez mais a stablecoins, sobretudo USDT, para liquidar pagamentos internacionais. O movimento mostra como a infraestrutura cripto está ganhando espaço onde o sistema bancário tradicional recua.
A guerra envolvendo o Irã começou a afetar uma camada pouco visível, mas crítica, do mercado global: a infraestrutura de pagamentos do comércio de commodities. Segundo Luke Sully, CEO da emissora de stablecoin Haycen, bancos ocidentais estão recuando de operações com maior risco de exposição indireta a entidades iranianas, o que vem deixando traders e financiadores sem acesso às trilhas tradicionais de liquidação.
Na prática, esse processo de “debanking” está empurrando parte desse fluxo para as stablecoins. A principal beneficiada, segundo Sully, é a Tether (USDT), que já conta com liquidez global profunda e ampla aceitação em mercados emergentes. Para quem precisa fazer pagamentos internacionais rápidos e pontuais, o ativo virou uma espécie de atalho operacional em meio ao aperto bancário.
Por que a guerra no Irã está empurrando o mercado para stablecoins
O ponto central é o aumento do medo regulatório entre bancos e instituições financeiras. Mesmo quando a transação parece legítima, envolvendo empresas em hubs regionais como Omã, o receio é que exista alguma exposição indireta a agentes sancionados. Em vez de assumir esse risco, parte dos bancos simplesmente se afasta.
Isso atinge um mercado estimado em US$ 2 trilhões, o de trade finance, responsável por financiar a movimentação global de commodities e mercadorias. Como explicou Sully à CoinDesk, boa parte desse setor já opera com forte participação de financiadores não bancários, como fundos de crédito privado. Ainda assim, esses agentes dependem dos bancos para acessar infraestrutura de liquidação e pagamento.
Quando essa ponte falha, a alternativa mais funcional passa a ser a blockchain. Como o CriptoBR mostrou recentemente na matéria sobre a expansão das stablecoins nas finanças tradicionais, esses ativos já deixaram de ser apenas ferramentas do mercado cripto e avançam sobre casos reais de uso. Agora, o vetor é ainda mais direto: necessidade operacional.
USDT domina o fluxo, mas movimento expõe mudança maior
De acordo com Sully, o USDT está “absorvendo boa parte do fluxo de pagamentos” justamente porque oferece algo que o mercado valoriza em momentos de estresse: liquidez global, velocidade e previsibilidade na liquidação. Em muitos países, quem recebe USDT sabe que conseguirá convertê-lo em dólar local ou em moeda forte mais tarde, o que reduz a fricção da operação.
Os números ajudam a explicar essa virada. O mercado de stablecoins já ultrapassou US$ 300 bilhões em valor de mercado, após crescer cerca de 50% em 2025, enquanto o volume transacionado superou US$ 4 trilhões no mesmo período. Hoje, elas já representam cerca de 30% de toda a atividade on-chain, consolidando seu papel como infraestrutura de pagamentos e acesso a dólar fora dos trilhos bancários clássicos.
Esse avanço acontece em paralelo a um cenário de instabilidade geopolítica que também vem mexendo com o preço dos criptoativos. Como reportamos mais cedo, o Bitcoin caiu abaixo de US$ 71 mil após a escalada no Estreito de Ormuz, mostrando como a guerra afeta tanto o apetite por risco quanto a infraestrutura financeira por trás do comércio global.
Ao mesmo tempo, a adoção não significa que as stablecoins resolveram o problema estrutural do setor. O próprio CEO da Haycen descreve o movimento como um “workaround”, e não como solução definitiva. Em outras palavras, traders estão usando cripto porque precisam continuar operando, não porque o sistema ideal já foi construído.
Ainda assim, o sinal é forte. Quando bancos recuam e stablecoins entram para manter o fluxo de pagamentos vivo, o mercado ganha uma demonstração prática do valor dessa tecnologia. Isso também reforça discussões sobre competição entre redes e emissores, tema que voltou ao radar após a BNB Chain estender a taxa zero para stablecoins até o fim de abril, numa tentativa de capturar mais liquidez e uso transacional.
Para o leitor, o recado é simples: stablecoins estão se tornando menos uma tese e mais uma infraestrutura. A guerra no Irã não criou essa tendência, mas acelerou sua adoção em um dos ambientes mais sensíveis da economia global, o comércio internacional de commodities.
Fonte primária: CoinDesk, em entrevista com Luke Sully, CEO da Haycen.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





