Jeffrey Sprecher, CEO da ICE, dona da NYSE, disse que a Hyperliquid ficou grande demais para ser ignorada e comparou a atividade da DEX à Nasdaq. A fala aumenta a pressão regulatória sobre perps on-chain e mostra como o mercado tradicional acompanha infraestruturas cripto 24/7.
Jeffrey Sprecher, fundador e CEO da Intercontinental Exchange (ICE), empresa controladora da Bolsa de Nova York, colocou a Hyperliquid no centro do debate sobre o futuro dos mercados globais. Em evento da Bernstein, o executivo afirmou que a exchange descentralizada de perpétuos já é “maior que a Nasdaq” em atividade de negociação, apesar de operar com uma estrutura muito menor que a de bolsas tradicionais.
Segundo o CoinDesk, Sprecher disse que sua equipe já se reuniu mais de uma vez com os fundadores da Hyperliquid. A comparação não se refere ao valor de mercado, já que a Nasdaq ainda vale muito mais como companhia listada. O ponto central é o volume e a relevância operacional que a plataforma ganhou em derivativos cripto, especialmente nos contratos perpétuos.
Por que a fala do CEO da ICE importa
A Hyperliquid domina mais de 70% do mercado de perpétuos descentralizados, de acordo com dados de mercado citados na cobertura internacional. O protocolo também passou a chamar atenção fora do nicho cripto ao oferecer exposição 24/7 a ativos como petróleo, inclusive em horários em que mercados tradicionais de energia estão fechados.
Esse detalhe é relevante porque a ICE opera mercados regulados de commodities, energia e derivativos. Quando o CEO de uma infraestrutura desse porte reconhece que uma plataforma cripto está atraindo fluxo em janelas que a bolsa tradicional não cobre, o sinal para reguladores e concorrentes é claro: a disputa não é mais apenas por tokens, mas por arquitetura de mercado.
O movimento conversa com um tema que o CriptoBR já vem acompanhando. Na matéria sobre CME e ICE mirando a Hyperliquid por risco no petróleo, a preocupação das bolsas tradicionais era justamente a migração de preço e liquidez para ambientes offshore. Agora, a fala de Sprecher adiciona um tom mais ambíguo: há crítica regulatória, mas também reconhecimento tecnológico.
Perpétuos entram no radar dos reguladores
A declaração acontece no mesmo dia em que a CFTC avançou em sua abordagem para perpétuos cripto regulados nos Estados Unidos. Como o CriptoBR mostrou na cobertura sobre o primeiro perp de Bitcoin regulado nos EUA, o mercado americano começa a abrir espaço para produtos que, por anos, cresceram principalmente em exchanges globais e plataformas descentralizadas.
Para Sprecher, a existência de plataformas como a Hyperliquid cria uma pergunta difícil para autoridades americanas e europeias: criar uma categoria regulatória nova para perpétuos ou tentar enquadrar esses mercados dentro de regimes já existentes, como Dodd-Frank nos EUA e EMIR na União Europeia.
Na prática, isso pode definir quem captura a próxima onda de liquidez. Se a regulação abrir caminho para perps supervisionados, exchanges tradicionais e corretoras reguladas ganham munição para competir. Se a resposta demorar, plataformas on-chain continuam testando produtos mais rápido e com alcance global.
Wall Street observa a infraestrutura on-chain
A Hyperliquid não é apenas uma DEX de nicho. O protocolo combina livro de ofertas, liquidação on-chain e uma base de usuários que busca alavancagem e acesso contínuo a mercados. Essa mistura ajuda a explicar por que sua ascensão incomoda bolsas tradicionais e, ao mesmo tempo, desperta curiosidade em executivos de Wall Street.
O interesse também se conecta ao avanço de mercados 24/7 em outras frentes. A própria CFTC afirmou nesta sexta-feira que a negociação sem interrupção pode fazer sentido para cripto, embora nem todos os setores estejam prontos para operar nesse ritmo. Em commodities agrícolas, por exemplo, a agência vê riscos de liquidez menor, spreads maiores e manipulação em horários de baixa supervisão.
Para o investidor cripto, o recado é duplo. De um lado, a validação vinda de nomes como ICE reforça que a infraestrutura DeFi já influencia conversas institucionais. De outro, quanto maior a Hyperliquid fica, maior tende a ser o escrutínio regulatório. Esse mesmo equilíbrio apareceu quando a Coinbase assumiu papel no USDC da Hyperliquid, aproximando ainda mais a plataforma de players regulados.
O próximo capítulo deve girar menos em torno de uma frase chamativa e mais sobre regras de mercado. A pergunta para 2026 é se os perpétuos on-chain serão integrados ao sistema regulado ou se continuarão crescendo como uma camada paralela, global e difícil de conter.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





