Os ETFs spot de Bitcoin nos EUA chegaram a nove pregões seguidos de saques, a maior sequência negativa desde o lançamento da categoria em janeiro de 2024. A pressão também atingiu os fundos de Ether, que completaram 13 sessões de saída, reforçando a cautela institucional em meio ao recuo do mercado cripto.
Os ETFs spot de Bitcoin listados nos Estados Unidos registraram nove dias consecutivos de resgates, com cerca de US$ 2,8 bilhões deixando os produtos no período. Segundo dados acompanhados pelo CoinDesk e pela SoSoValue, trata-se da maior sequência de saques desde que os fundos começaram a ser negociados em janeiro de 2024.
O movimento importa porque os ETFs viraram um dos principais termômetros da demanda institucional por Bitcoin. Quando esses produtos captam, emissores precisam comprar BTC para lastrear cotas; quando há resgates persistentes, a pressão pode ir no sentido oposto, especialmente em semanas de baixa liquidez e maior aversão a risco.
BlackRock lidera a pressão nos ETFs de Bitcoin
A semana foi marcada por saídas pesadas. O CoinDesk informou que os ETFs spot de Bitcoin perderam aproximadamente US$ 1,3 bilhão apenas na semana, prolongando uma sequência de três semanas de fluxo líquido negativo. O dado veio após uma sessão particularmente dura para o IBIT, fundo da BlackRock, que registrou saída diária de US$ 527,84 milhões na quarta-feira, o segundo maior resgate desde o lançamento do produto.
Esse ponto dialoga com a pressão vista nos últimos dias. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a venda de US$ 1,3 bilhão em ETF que pressionou o Bitcoin, grandes negociações em IBIT já vinham chamando atenção por sinalizar redução de exposição institucional. Antes disso, a queda do Bitcoin a US$ 74 mil com saída de US$ 2,26 bilhões em ETFs também havia indicado que o canal de fundos deixou de funcionar como comprador marginal constante.
O Bitcoin recuou da região de US$ 80 mil para perto de US$ 73 mil durante a sequência de saques, segundo o levantamento citado pelo CoinDesk. A queda não depende apenas dos ETFs: tensões geopolíticas, petróleo mais sensível ao conflito no Oriente Médio e rotação de capital para ações ligadas a inteligência artificial também pesaram sobre o apetite por criptoativos.
Ether sofre sequência ainda mais longa
A pressão não ficou restrita ao Bitcoin. Dados compilados por MEXC News, com base na SoSoValue, apontam que os ETFs spot de Ether registraram US$ 121,4 milhões em saídas em 28 de maio, completando 13 pregões consecutivos de resgates. No acumulado da sequência, os fundos de ETH perderam cerca de US$ 694,6 milhões.
A comparação é relevante porque os fundos de Ether têm uma base de ativos menor que os de Bitcoin. Por isso, uma saída diária de nove dígitos pesa proporcionalmente mais sobre o mercado de ETH. A fragilidade também aparece em um momento em que o ativo tenta sustentar a região de US$ 2 mil, enquanto investidores questionam a força relativa do Ethereum frente ao Bitcoin e a outras narrativas de mercado.
O CriptoBR já vinha acompanhando essa perda de fôlego relativa. Em maio, a matéria sobre o Ethereum em mínima de 10 meses contra o Bitcoin mostrou como a rotação entre os dois maiores criptoativos ganhou força no mercado. Agora, os fluxos dos ETFs reforçam que parte do capital institucional também está mais seletiva.
Saques não significam fim da tese, mas mudam o ritmo
A leitura mais prudente é que a tese dos ETFs segue viva, mas menos linear. Em 2024 e 2025, os fundos spot foram tratados como uma ponte quase automática entre Wall Street e o Bitcoin. O episódio atual mostra que essa ponte funciona nos dois sentidos: facilita entrada de capital em ciclos de apetite por risco, mas também permite saída rápida quando gestores reduzem exposição.
Para o investidor brasileiro, o sinal principal não é tentar adivinhar o próximo candle, e sim observar se os fluxos voltam a estabilizar. Uma pausa nos resgates pode aliviar a pressão sobre o Bitcoin; uma continuidade dos saques, por outro lado, tende a manter o mercado dependente de compradores à vista, tesourarias corporativas e demanda em exchanges.
A próxima semana deve mostrar se a sequência negativa foi um ajuste de posicionamento ou uma mudança mais duradoura no comportamento institucional. Até lá, o recado dos ETFs é claro: o mercado cripto ainda tem compradores estruturais, mas eles não estão operando em modo de acumulação constante.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





