O Bitcoin caiu para perto de US$ 74.300 neste sábado, pressionado por saídas de ETFs spot nos EUA e liquidações em derivativos. O movimento mostra que o mercado voltou a tratar o BTC como ativo de risco sensível a juros, fluxo institucional e alavancagem.
O Bitcoin voltou a perder a região dos US$ 75 mil neste sábado (23), em uma correção puxada por resgates em ETFs spot dos Estados Unidos, alta dos rendimentos dos títulos públicos e liquidações de posições alavancadas. Segundo o CoinDesk, o BTC tocou cerca de US$ 74.305 no início do dia, o menor nível desde 20 de abril.
A queda ocorre em um momento em que o mercado cripto tenta medir se a pressão é apenas uma realização de lucros depois da alta de maio ou um sinal de enfraquecimento mais amplo da demanda institucional. Na prática, o dado mais importante está nos fundos listados em bolsa: investidores retiraram US$ 1,26 bilhão dos ETFs spot de Bitcoin nesta semana, depois de aproximadamente US$ 1 bilhão em saídas na semana anterior.
ETFs viram de motor de alta para fonte de pressão
Ao todo, os ETFs spot de Bitcoin acumularam mais de US$ 2,26 bilhões em resgates nas últimas duas semanas, de acordo com o levantamento citado pelo CoinDesk. A The Block também reportou, com base em dados da SoSoValue, que a semana terminou com US$ 1,26 bilhão em saídas líquidas, o pior resultado semanal desde o fim de janeiro.
Esse fluxo importa porque os ETFs foram um dos principais canais de entrada de capital institucional no ciclo recente. Quando os fundos compram, ajudam a absorver oferta e reforçam a tese de demanda regulada. Quando começam a vender de forma persistente, o efeito se inverte: o preço passa a refletir não só a negociação em corretoras cripto, mas também a rotação de portfólios tradicionais.
O CriptoBR já havia mostrado que os ETFs de Bitcoin perderam US$ 635 milhões em um único dia, sinalizando que a mudança de humor não começou neste sábado. A diferença agora é que o movimento se acumulou por duas semanas e coincidiu com a perda de uma região psicológica importante no gráfico.
Juros altos reduzem apetite por risco
O pano de fundo macro também pesa. O CoinDesk atribuiu parte da venda à alta dos rendimentos dos Treasuries nos EUA e de títulos públicos em outros mercados desenvolvidos. Quando os juros sobem, ativos sem rendimento próprio, como Bitcoin e ouro, tendem a enfrentar competição maior de instrumentos de renda fixa.
No caso do BTC, esse efeito é amplificado porque uma fatia relevante do dinheiro que entrou por ETFs é administrada por gestores sensíveis a risco, volatilidade e custo de oportunidade. Se o juro real fica mais atraente, parte desse capital pode reduzir exposição a cripto mesmo sem uma mudança estrutural na tese de longo prazo.
A correção também chega poucos dias depois de novas decisões regulatórias nos EUA. Na sexta-feira, o CriptoBR noticiou que a SEC adiou uma regra para ações tokenizadas enquanto o Bitcoin já perdia US$ 75 mil. Antes disso, a agência havia liberado opções de índice Bitcoin da Nasdaq, reforçando o avanço de produtos regulados, mas sem impedir a realização no curto prazo.
Liquidações mostram excesso de alavancagem
Além dos ETFs, o mercado futuro ajudou a acelerar a queda. A CryptoDnes citou dados da CoinGlass indicando cerca de US$ 945 milhões em liquidações no mercado cripto em 24 horas, com mais de US$ 870 milhões ligados a posições compradas. Bitcoin e Ethereum concentraram a maior parte das perdas forçadas.
Esse padrão é típico de correções rápidas em cripto: traders apostam na continuação da alta, o preço perde um suporte relevante, corretoras liquidam posições alavancadas e a venda automática pressiona ainda mais o mercado. O problema não é apenas a queda do Bitcoin, mas a velocidade com que ela contamina altcoins com menor liquidez.
O Ethereum também recuou no dia, enquanto Solana, XRP, BNB e outros grandes ativos acompanharam o movimento de aversão a risco. Mesmo assim, o Bitcoin segue dominando a leitura do mercado: se recuperar rapidamente a zona de US$ 75 mil, a queda pode ser tratada como falso rompimento; se falhar, suportes mais baixos entram no radar dos traders.
O que observar agora
Para o investidor, o ponto central é separar fluxo de curto prazo de tese estrutural. Saídas de ETFs não significam, por si só, abandono institucional definitivo. Elas podem refletir rebalanceamento, realização de lucro, hedge ou busca por liquidez em um ambiente macro mais duro.
Ao mesmo tempo, ignorar o tamanho dos resgates seria imprudente. Duas semanas consecutivas de retiradas, somadas a quase US$ 1 bilhão em liquidações, mostram que o mercado estava posicionado para uma recuperação mais limpa do que a realidade permitiu.
Nas próximas sessões, a atenção deve ficar em três sinais: estabilização dos fluxos dos ETFs, comportamento do BTC entre US$ 74 mil e US$ 75 mil, e redução da alavancagem em futuros. Sem melhora nesses pontos, qualquer repique tende a ser testado rapidamente por vendedores.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





