O Citi lançou recibos depositários digitais para ações privadas, usando infraestrutura blockchain regulada da SIX. A proposta mira empresas que adiam IPOs e investidores institucionais que buscam acesso mais direto a mercados privados, com o próprio banco atuando como emissor e custodiante.
O Citi anunciou nesta quinta-feira (11) o lançamento de seus Digital Depositary Receipts, uma estrutura tokenizada para representar ações de empresas privadas em infraestrutura blockchain regulada. O banco afirma que o produto oferece a emissores e investidores globais uma forma mais direta e transparente de acessar equity privado, em um momento em que companhias de crescimento têm ficado mais tempo fora das bolsas.
Na prática, o movimento leva uma peça clássica do mercado financeiro, o recibo depositário, para uma camada digital. Segundo o comunicado do Citi, os recibos serão emitidos sobre ações privadas e usarão infraestrutura operada pela SIX, grupo suíço que mantém uma das primeiras depositárias centrais digitais reguladas do mundo.
O que muda para o mercado privado
Mercados privados costumam ser menos líquidos, menos padronizados e mais dependentes de estruturas intermediárias, como veículos de propósito específico. O Citi tenta reduzir essa fricção ao assumir dois papéis centrais: emissor dos recibos tokenizados e custodiante dos ativos representados.
Esse desenho importa porque a tokenização só ganha escala institucional quando resolve três pontos ao mesmo tempo: guarda, liquidação e clareza sobre quem responde pelo ativo. Em vez de vender a ideia como uma experiência cripto aberta, o Citi posiciona o produto como uma extensão regulada de sua área de serviços para emissores e custódia.
A primeira transação envolveu a Kaleido, plataforma de tokenização e ativos digitais ligada ao portfólio do Citi, com investidores da área de Wealth do banco. A escolha não é aleatória: ela permite testar a estrutura com uma empresa do próprio ecossistema antes de abrir espaço para emissores externos.
Tokenização avança dentro de Wall Street
O anúncio reforça a corrida de bancos e infraestruturas tradicionais para levar ativos reais ao blockchain. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a aposta da Abra em tokenização em Wall Street, a disputa deixou de ser apenas sobre criptoativos nativos e passou a envolver ações, títulos, fundos e recebíveis.
O próprio Citi já vinha preparando o terreno. No início de junho, o banco projetou que o mercado de ativos tokenizados poderia chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030 em seu cenário base, com ações tokenizadas e títulos do Tesouro dos EUA entre os principais vetores de crescimento. Essa leitura também conversa com o avanço de redes bancárias tokenizadas, tema abordado pelo CriptoBR quando grandes bancos dos EUA passaram a preparar uma infraestrutura contra a pressão das stablecoins.
Outro ponto relevante é a escolha da SIX. Em 2025, Citi e SDX já haviam anunciado uma colaboração para levar ações pré-IPO a investidores qualificados por meio de infraestrutura digital. O lançamento desta quinta transforma aquela parceria em produto, e não apenas em intenção estratégica.
Por que isso importa para cripto
Para o investidor cripto, a notícia não significa que ações privadas vão circular livremente em DeFi amanhã. O modelo nasce institucional, com infraestrutura regulada, investidores elegíveis e controles de custódia. Ainda assim, ele mostra como a tokenização está deixando de ser uma narrativa de nicho para virar uma ferramenta operacional usada por bancos globais.
Esse é o mesmo eixo que tem puxado o interesse por RWAs. Em maio, o CriptoBR destacou que a BNB Chain chegou a US$ 3,6 bilhões em ativos do mundo real no primeiro trimestre, sinal de que blockchains públicas e infraestruturas permissionadas estão competindo por diferentes fatias do mesmo mercado.
O risco, por outro lado, é o excesso de empacotamento. Tokenizar uma ação privada não elimina automaticamente problemas de valuation, liquidez, lock-up ou informação assimétrica. A diferença é que, quando um banco global assume emissão e custódia, o produto tende a ser vendido mais como infraestrutura de mercado do que como aposta especulativa.
O lançamento do Citi, portanto, deve ser lido como mais uma etapa da convergência entre finanças tradicionais e blockchain. A promessa é simplificar o acesso a empresas privadas; o teste real será provar que a estrutura melhora liquidez e transparência sem criar uma nova camada de complexidade para investidores.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





