A Payward, controladora da Kraken, fechou parceria com a GTN para levar a xStocks além das ações e ETFs dos EUA. A expansão começa por ações listadas em Hong Kong e mira Reino Unido, Europa e Coreia do Sul, sujeita a aprovações regulatórias.
A Payward, empresa por trás da Kraken, anunciou nesta quarta-feira (22) uma parceria com a GTN para ampliar a xStocks, sua estrutura de ações tokenizadas, para mercados fora dos Estados Unidos. O primeiro passo será tokenizar ações listadas em Hong Kong, com Reino Unido, Europa e Coreia do Sul no roteiro das próximas etapas.
O movimento reforça uma disputa cada vez mais direta entre exchanges, fintechs e corretoras para transformar ações tradicionais em ativos negociáveis onchain. A tese é simples: em vez de o investidor depender de múltiplas corretoras, fusos horários e infraestruturas locais, a ação tokenizada passa a circular em blockchain com liquidação digital e disponibilidade ampliada, ainda que com restrições regulatórias por jurisdição.
Hong Kong será o primeiro mercado internacional
Segundo o comunicado publicado pela GTN, a parceria cria um caminho para a xStocks escalar além de ações e ETFs dos EUA, começando por papéis de Hong Kong antes de avançar para ativos listados no Reino Unido, na Europa e na Coreia do Sul. A GTN entra no arranjo oferecendo execução global, custódia dos ativos tradicionais subjacentes, registro contábil e infraestrutura para alcançar mais de 90 mercados.
A xStocks afirma que a distribuição institucional por meio da GTN dependerá das licenças necessárias em cada mercado. Esse ponto é central: ações tokenizadas não eliminam o arcabouço regulatório dos valores mobiliários. Elas mudam a forma de distribuição, liquidação e acesso, mas continuam exigindo regras claras sobre elegibilidade, custódia e disponibilidade local.
Hoje, a xStocks diz reunir mais de 500 ativos tokenizados, mais de US$ 35 bilhões em volume transacionado e quase 200 mil holders no mundo. Os tokens são descritos como representações lastreadas 1:1 por ativos subjacentes, um modelo que tenta aproximar a experiência cripto da exposição a ações, ETFs e, mais recentemente, IPOs tokenizados.
Tokenização vira frente estratégica para exchanges
A expansão chega em um momento em que a tokenização de ativos reais deixou de ser um experimento de nicho. Robinhood, Coinbase, Kraken e outros participantes vêm disputando a narrativa de que ações, títulos, fundos e outros instrumentos financeiros podem circular em trilhos blockchain com liquidez mais ampla e integração com carteiras e aplicações DeFi.
No CriptoBR, essa tendência já apareceu em diferentes frentes. A própria Kraken já havia avançado com acesso tokenizado ao IPO da SpaceX via xStocks, enquanto grandes gestoras como a BlackRock vêm mirando fundos tokenizados e stablecoins como infraestrutura de mercado. Em paralelo, redes como a BNB Chain também vêm disputando esse fluxo, inclusive com crescimento em ações tokenizadas.
Para exchanges, o apelo é claro: ações tokenizadas podem aumentar retenção, volume e utilidade das contas cripto, aproximando o usuário de uma experiência financeira mais completa. Para investidores, o benefício potencial está em acessar mercados internacionais com menos fricção operacional. O risco, porém, está nos detalhes: liquidez real, direitos econômicos, disponibilidade geográfica, proteção ao investidor e clareza sobre quem guarda o ativo subjacente.
O que muda para o investidor
Na prática, a promessa da Payward é que um usuário elegível possa manter, em uma mesma carteira ou plataforma integrada, exposição tokenizada a ações dos EUA e, futuramente, de Hong Kong, Reino Unido, Europa e Coreia do Sul. A xStocks também afirma que seus ativos circulam por mais de 100 exchanges, carteiras e aplicações DeFi, o que amplia a ambição de interoperabilidade.
Mas a própria documentação da xStocks deixa claro que os produtos não estão disponíveis para pessoas dos Estados Unidos e podem não estar disponíveis em outras jurisdições onde a oferta dependa de autorização regulatória. Ou seja, a notícia é relevante menos por liberar acesso imediato para todos e mais por mostrar a direção do mercado: a próxima fase da tokenização quer ir além de criptoativos nativos e capturar a infraestrutura dos mercados globais.
Se a expansão cumprir o cronograma anunciado, Hong Kong será o teste inicial dessa estratégia internacional ainda nesta semana. As demais regiões devem vir depois, condicionadas a aprovações e à capacidade da infraestrutura de manter lastro, liquidação e compliance em mercados com regras diferentes.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





