A Chainlink lançou o Project Pangea com consórcios bancários da Europa e da Coreia do Sul para testar liquidação cambial em tempo real. A iniciativa mira swaps atômicos entre stablecoins reguladas de euro e won, reduzindo o ciclo tradicional de liquidação de T+2 para T+0.
A Chainlink anunciou nesta terça-feira (23) o Project Pangea, uma iniciativa com consórcios bancários da Europa e da Coreia do Sul para testar liquidação cambial em tempo real usando stablecoins reguladas. O grupo reúne participantes ligados à Qivalis, consórcio europeu apoiado por 37 bancos, e à UniKA, aliança coreana com mais de 10 bancos comerciais.
O objetivo é atacar uma das partes mais lentas do mercado financeiro tradicional: a liquidação de operações de câmbio internacional. Segundo o comunicado da Chainlink publicado via PR Newswire, os participantes representam mais de US$ 10 trilhões em ativos sob gestão e querem avaliar a migração do ciclo tradicional T+2 para liquidação T+0, ou praticamente instantânea.
Como o Project Pangea pretende funcionar
Na prática, o Project Pangea quer permitir swaps atômicos entre ativos digitais referenciados em moedas fiduciárias, especialmente stablecoins de euro e won sul-coreano. A proposta combina padrões já conhecidos por bancos, como mensagens ISO 20022 e infraestrutura Swift, com componentes on-chain da Chainlink e tecnologia da FairSquareLab.
A arquitetura descrita pela Chainlink tem três camadas: uma camada bancária baseada em Swift e ISO 20022, uma camada de conectividade com CCIP e Data Streams da Chainlink, e uma camada de liquidação com contratos de câmbio on-chain em redes como Ethereum, Polygon e a Pangea L1.
O ponto central é o modelo de Payment-versus-Payment (PvP), no qual as duas pontas da troca são liquidadas de forma coordenada. Isso reduz o risco de uma parte entregar a moeda enquanto a outra ainda não completou a operação, um problema relevante em câmbio internacional, especialmente em corredores que passam por múltiplos intermediários.
Por que isso importa para stablecoins
A notícia reforça uma tendência que já vinha ganhando força: bancos não estão apenas observando stablecoins, mas tentando adaptá-las a fluxos institucionais. Recentemente, o CriptoBR mostrou como a MoneyGram virou validadora da Solana em uma aposta ligada a stablecoins, sinalizando que empresas de pagamentos também buscam infraestrutura mais direta para liquidação.
No caso do Project Pangea, o foco não é varejo, remessas pequenas ou uso especulativo. A proposta mira operações de câmbio de grande porte entre instituições, usando stablecoins reguladas e liquidez on-chain como trilho de liquidação. Se o desenho sair do piloto e ganhar adoção, o impacto pode aparecer em custos, velocidade e uso de capital por bancos que operam entre Europa e Coreia.
Essa discussão também se conecta ao avanço da tokenização no mercado tradicional. Na segunda-feira, o CriptoBR publicou que OKX e a dona da NYSE criaram uma ponte para ações tokenizadas, outro exemplo de como instituições e plataformas cripto estão tentando aproximar ativos tradicionais de trilhos blockchain.
Chainlink ganha mais espaço institucional
Para a Chainlink, o anúncio amplia a tese de que a rede deixou de ser apenas uma provedora de oráculos para DeFi e passou a vender infraestrutura para mercados de capitais. No Project Pangea, a empresa cita o CCIP para interoperabilidade, Data Streams para dados de câmbio em alta velocidade e o Chainlink Runtime Environment como camada de orquestração entre sistemas bancários e blockchains.
Essa não é a primeira iniciativa institucional da Chainlink. Em abril, o CriptoBR cobriu quando a AWS levou oráculos da Chainlink ao Marketplace, facilitando o acesso de empresas a dados on-chain e off-chain dentro de ambientes corporativos.
Apesar do potencial, o Project Pangea ainda é uma iniciativa de desenvolvimento e avaliação. O comunicado fala em construir uma estrutura para liquidação T+0, não em uma rede já processando volumes comerciais em escala. Também há desafios regulatórios, operacionais e de liquidez antes que bancos movam fluxos relevantes de câmbio para stablecoins.
Ainda assim, o sinal é importante: a próxima disputa das stablecoins pode não estar apenas nas carteiras de usuários finais, mas no back office de bancos, corretoras e sistemas de pagamento que querem encurtar a liquidação entre moedas.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





