Um novo esquema chamado Quantum Safe Bitcoin (QSB) propõe transações resistentes a ataques quânticos sem exigir soft fork na rede. A proposta usa scripts já existentes no Bitcoin, mas traz custo computacional alto e ainda depende de adoção por carteiras e pools de mineração.
O debate sobre a ameaça quântica ao Bitcoin ganhou um novo capítulo nesta semana. Avihu Levy, executivo da StarkWare e coautor do BIP-360, publicou um paper técnico e uma implementação open source de um esquema batizado de Quantum Safe Bitcoin (QSB), que promete permitir transações resistentes a ataques quânticos sem alterar o protocolo do Bitcoin.
Na prática, a proposta tenta resolver um dos medos mais antigos do mercado: o dia em que um computador quântico grande o suficiente conseguir quebrar os esquemas de assinatura que protegem hoje as chaves do Bitcoin. Segundo Levy, o QSB contorna esse risco usando regras antigas de Script já aceitas pela rede, substituindo partes mais vulneráveis por uma construção baseada em hashes e assinaturas Lamport.
O trabalho chega poucos dias depois de o mercado voltar a discutir o tema com força, como mostramos na matéria sobre como o Google alertou para o potencial de computadores quânticos quebrarem o Bitcoin com menos qubits do que se imaginava. Também se conecta ao debate recente sobre medidas emergenciais, como a proposta em que Michael Saylor defendeu congelar moedas perdidas para reduzir a superfície de ataque quântico.
Como funciona a proposta Quantum Safe Bitcoin
De acordo com o paper publicado por Levy no GitHub, o QSB foi desenhado para funcionar dentro das limitações já existentes do Bitcoin, sem soft fork, sem novos opcodes e sem coordenação de consenso. Em vez de depender da robustez da criptografia de curva elíptica, o esquema tenta se apoiar principalmente na resistência de funções hash como a RIPEMD-160, que seriam menos expostas em um cenário de avanço quântico.
Em termos simples, o método troca a dependência de assinaturas tradicionais por uma combinação mais complexa de quebra-cabeças hash e assinaturas Lamport de uso único. Isso desloca parte do esforço para fora da cadeia: o usuário que cria a transação precisa executar um trabalho computacional pesado antes de conseguir gerar um gasto válido.
Relatos publicados por veículos como Decrypt, CoinDesk e The Quantum Insider apontam que esse custo pode ficar entre US$ 75 e US$ 150 por transação em GPUs alugadas na nuvem, podendo chegar à faixa de algumas centenas de dólares dependendo da configuração. Em troca, o esquema alcançaria algo próximo de 118 bits de resistência de segunda pré-imagem no modelo analisado por Levy, sem depender da segurança da assinatura ECDSA que hoje protege a maior parte das carteiras.
O que muda para quem segura Bitcoin
O ponto mais importante para o investidor comum é que o QSB não significa que o Bitcoin está sob ataque agora. Não existe, neste momento, um computador quântico operacional capaz de quebrar em larga escala as assinaturas usadas pela rede. Mesmo assim, o tema importa porque endereços com chave pública já exposta se tornam mais sensíveis se esse tipo de máquina surgir no futuro.
Na visão de Levy, a utilidade do QSB está em provar que existe um caminho de defesa imediata, ainda que imperfeito, usando a infraestrutura atual do Bitcoin. Isso pode servir como ponte até que soluções mais elegantes, padronizadas e compatíveis com carteiras populares avancem. O tema já vinha sendo acompanhado pelo mercado, inclusive após a estreia de uma testnet voltada a criptografia pós-quântica para o ecossistema Bitcoin.
Ao mesmo tempo, a proposta está longe de ser uma solução definitiva. As transações são classificadas como não padronizadas, o que limita o relay padrão na rede e pode exigir envio direto para pools de mineração dispostas a aceitar esse tipo de operação. Além disso, o esquema ainda não cobre casos como Lightning Network e não está integrado a carteiras de varejo.
Por que isso importa agora
O novo paper reacende uma discussão que deixou de ser apenas teórica. Nos últimos meses, o setor passou a tratar a computação quântica menos como ficção distante e mais como um risco de longo prazo que precisa de plano de contingência. Para o Bitcoin, isso envolve dois debates paralelos: como proteger moedas já existentes e como fazer essa migração sem rachar a comunidade em uma disputa de consenso.
É justamente nesse ponto que o QSB chama atenção. Mesmo com limitações claras, a proposta de Levy tenta mostrar que o Bitcoin pode ganhar uma camada emergencial de proteção sem esperar anos por uma mudança de protocolo. Se a abordagem vai ganhar tração real entre desenvolvedores, carteiras e mineradores ainda é cedo para dizer. Mas o recado ao mercado é claro: a corrida por defesas pós-quânticas no Bitcoin já saiu do campo puramente acadêmico.
Fontes primárias e de apoio: paper e repositório “Quantum-Safe-Bitcoin-Transactions”, publicado por Avihu Levy no GitHub; cobertura adicional de Decrypt, CoinDesk, Bitcoin.com News e The Quantum Insider.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





