O Bitcoin voltou ao debate macro depois de encerrar um longo período de desempenho abaixo das ações americanas. Para Mark Connors, da Risk Dimensions, inflação persistente, juros altos e pressão sobre títulos podem recolocar o BTC como ativo de melhor assimetria.
O Bitcoin pode estar entrando em uma nova fase de desempenho superior a ações, títulos e até ouro, segundo Mark Connors, diretor de investimentos da Risk Dimensions e ex-chefe global de portfólio do Credit Suisse. A leitura vem em um momento de mercado desconfortável: o BTC ainda tenta se estabilizar após a queda recente para a faixa de US$ 74 mil, enquanto investidores acompanham saídas fortes de ETFs spot nos Estados Unidos.
Em entrevista ao CoinDesk, Connors afirmou que o BTC encerrou no início de maio seu mais longo período de desempenho inferior ao S&P 500. A tese é que o mercado passou de uma fase de consolidação para outra em que o Bitcoin volta a competir com ativos tradicionais, especialmente se a inflação continuar resistente e os juros permanecerem elevados por mais tempo.
Por que o Bitcoin volta a ganhar atenção
A análise não ignora o curto prazo difícil. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a queda do Bitcoin para US$ 74 mil em meio a saídas de ETFs, os fundos spot listados nos EUA registraram resgates relevantes nas últimas semanas. Esse fluxo pesa no preço e reduz o apetite por risco no mercado cripto.
O ponto de Connors é outro: em ambientes de inflação persistente, títulos públicos e crédito deixam de parecer refúgios tão confortáveis. Se os rendimentos sobem porque o mercado exige prêmio maior, o preço dos títulos cai. Ao mesmo tempo, empresas listadas em bolsa podem sofrer com custo de capital mais alto. Nesse cenário, o Bitcoin volta a ser observado como uma alternativa escassa, líquida e fora do balanço de governos.
O gestor também relaciona a discussão ao avanço de tecnologia. Para ele, inteligência artificial e blockchain tendem a ganhar importância como ferramentas de produtividade e automação em um mundo pressionado por custos. Essa visão conversa com a rotação recente para temas de tecnologia cripto, como reportamos quando altcoins de IA avançaram enquanto o Bitcoin seguia travado.
ETF, ouro e o risco de leitura apressada
A comparação com o ouro é uma das partes mais sensíveis da tese. Connors avalia que o ouro já teve uma forte corrida e que parte do mercado pode voltar a olhar para o Bitcoin como ativo de retomada. Ainda assim, essa migração não é automática. O BTC continua negociando como ativo de risco em momentos de estresse, e os ETFs spot mostram que o investidor institucional ainda alterna rapidamente entre entrada e saída.
Esse detalhe importa para quem acompanha preço no curto prazo. A tese de desempenho superior não significa alta em linha reta, nem elimina o risco de novas quedas caso os fluxos dos ETFs continuem negativos. A diferença é que o argumento macro volta a ser mais estrutural: se ações e títulos ficarem pressionados ao mesmo tempo, o Bitcoin pode recuperar espaço na carteira de investidores que buscam proteção contra inflação e exposição a tecnologia monetária.
O pano de fundo regulatório também segue relevante. A liberação de novos produtos, como as opções de índice Bitcoin aprovadas pela SEC para a Nasdaq, amplia as ferramentas disponíveis para investidores profissionais, mas também torna o mercado mais sensível a fluxos, hedge e rolagem de posições.
Para o leitor, o recado é simples: a queda recente do BTC não encerra a tese macro do ativo, mas exige separar narrativa de fluxo. Se os ETFs voltarem a captar e o mercado tradicional seguir pressionado por juros e inflação, o Bitcoin pode recuperar protagonismo. Se os resgates continuarem, a tese fica viva, mas o preço pode demorar mais para confirmar.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





