A Trump Media retirou da análise da SEC os registros S-1 ligados aos ETFs Truth Social Bitcoin e Bitcoin-Ethereum. A empresa diz que não seguirá com a oferta neste momento, em meio a uma disputa cada vez mais apertada por taxas e escala no mercado de ETFs cripto dos EUA.
A Trump Media & Technology Group, dona da Truth Social, retirou da fila da SEC os pedidos de registro para lançar ETFs cripto ligados à marca. O movimento atinge o Truth Social Bitcoin ETF e também estruturas relacionadas a Bitcoin e Ethereum, tirando de cena uma das propostas mais politicamente visíveis no mercado americano de fundos cripto.
Em documento protocolado em 19 de maio no EDGAR, a entidade do Truth Social Bitcoin ETF pediu a retirada imediata do Form S-1 e afirmou que decidiu “não prosseguir com a oferta pública neste momento”. Segundo a Decrypt, a Yorkville America, patrocinadora e consultora dos fundos, enquadrou a decisão como uma mudança de estratégia regulatória.
O que mudou na estratégia
A explicação oficial é que a Yorkville pretende buscar uma estrutura regulatória diferente, baseada no Investment Company Act de 1940, em vez do Securities Act de 1933 usado em produtos de commodity e ETPs spot. Na prática, a mudança indica que o grupo quer mais flexibilidade para desenhar estratégias que não caberiam no modelo anterior.
Isso não significa, por si só, que a Trump Media abandonou cripto. A empresa já vinha tentando transformar a marca Truth.Fi em uma frente financeira com exposição a ativos digitais, e a retirada pode ser seguida por novas propostas. Mas, para o investidor, o ponto relevante é simples: os ETFs que estavam em revisão não avançam no formato atual.
A decisão chega em um momento em que a SEC também discute como tratar novos produtos financeiros on-chain. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre a preparação de uma isenção para ações tokenizadas, o regulador americano tem sinalizado abertura para certos experimentos, mas ainda exige estruturas jurídicas bem definidas.
Mercado de ETFs ficou mais difícil
Além da justificativa regulatória, há uma leitura de mercado. Os ETFs de Bitcoin spot dos EUA viraram um segmento dominado por emissores com escala, distribuição e taxas agressivas. A Decrypt citou o analista da Bloomberg James Seyffart, que apontou a concorrência como um possível fator por trás da retirada.
Esse ambiente pesa especialmente para novos entrantes. Fundos com marca forte ainda precisam convencer investidores em três frentes: custo, liquidez e confiança operacional. Quando gestoras como BlackRock, Fidelity e outros players institucionais já concentram boa parte do fluxo, lançar um produto semelhante sem uma vantagem clara fica mais caro.
O CriptoBR vem acompanhando essa disputa nos fluxos de fundos. Em maio, por exemplo, os ETFs de Bitcoin registraram saída de US$ 635 milhões em um único dia, mostrando como o apetite institucional pode mudar rápido quando juros, risco geopolítico ou pressão de liquidez entram no radar.
Por que isso importa para cripto
A retirada reduz, pelo menos temporariamente, a quantidade de produtos cripto associados diretamente ao ecossistema Trump em análise na SEC. Isso importa porque esses pedidos misturavam três temas sensíveis: expansão dos ETFs, influência política sobre cripto e o avanço de empresas de mídia para produtos financeiros.
Para o mercado, a mensagem é menos sobre Bitcoin no curto prazo e mais sobre maturidade competitiva. Depois da aprovação dos ETFs spot em 2024, o setor deixou de ser apenas uma corrida por autorização regulatória. Agora, é também uma disputa por preço, distribuição e diferenciação real.
Também há um pano de fundo político. Propostas ligadas a figuras públicas de alto escalão tendem a receber escrutínio maior, principalmente em um ano em que democratas e republicanos seguem disputando os limites entre inovação financeira, conflito de interesse e regulação de criptoativos.
Mesmo assim, a retirada não fecha a porta para novos produtos. Se a Yorkville e a Trump Media reapresentarem uma estrutura diferente, a SEC terá de avaliar outra tese jurídica. Até lá, o episódio reforça que o mercado de ETFs cripto nos EUA já não premia apenas quem chega com uma marca conhecida.
O movimento também conversa com a expansão mais ampla de Wall Street para ativos digitais. Em paralelo aos ETFs, bancos e gestoras seguem testando tokenização, stablecoins e infraestrutura de liquidação, como visto no caso da Qivalis, que reúne 37 bancos em uma stablecoin em euro.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





