A Tether quer transformar sua reserva de ouro de cerca de US$ 23 bilhões em base para empréstimos com o token XAUT. A Ledn passará a permitir que clientes mantenham ouro tokenizado e, ainda em 2026, tomem crédito em stablecoins sem vender o ativo.
A Tether está ampliando a utilidade do Tether Gold (XAUT) ao levar o token lastreado em ouro para a plataforma de crédito cripto Ledn. Segundo a CoinDesk, a proposta é permitir que investidores usem ouro tokenizado como garantia para empréstimos, em um modelo parecido com o crédito lastreado em Bitcoin.
O movimento importa porque conecta três temas fortes do mercado atual: stablecoins, ativos do mundo real tokenizados e a tentativa do setor de crédito cripto de recuperar confiança depois dos colapsos de 2022. Na prática, holders de XAUT poderão buscar liquidez em stablecoins sem necessariamente vender o ouro que serve como lastro do token.
Como funcionará o produto com XAUT
A Ledn afirma que usuários já podem manter e negociar XAUT em sua plataforma, junto de Bitcoin, USDT e USAT. A etapa seguinte, prevista para ainda este ano, será liberar empréstimos garantidos por Tether Gold, com recebimento e pagamento em stablecoins.
Cada unidade de XAUT representa uma onça troy de ouro físico armazenado em cofres na Suíça. De acordo com a CoinDesk, a Tether diz ter aproximadamente US$ 23 bilhões em barras de ouro ligadas ao produto, o que coloca a empresa entre os grandes detentores privados do metal.
A lógica é simples: em vez de vender o token para levantar caixa, o investidor o deposita como garantia e recebe liquidez. Esse tipo de estrutura é comum no mercado financeiro tradicional, mas ganha uma camada nova quando o ativo de garantia circula em trilhos cripto.
Crédito cripto tenta virar a página de 2022
O ponto sensível está no risco de custódia. A Ledn diz que os ativos usados como garantia não serão emprestados para terceiros nem usados para gerar rendimento, mantendo uma estrutura de colateral 1:1. Essa promessa é relevante porque o mercado ainda carrega as marcas de Celsius, BlockFi e Voyager, empresas que quebraram após estratégias opacas e alavancadas.
Para o leitor, o detalhe principal é que a Tether não está apenas defendendo o USDT como stablecoin dominante. A empresa vem tentando montar um ecossistema mais amplo, com ouro tokenizado, energia, mineração de Bitcoin, infraestrutura de IA e produtos financeiros que orbitam seus próprios ativos.
Esse contexto conversa com a expansão recente das stablecoins no mercado. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre o USDT superando o Ethereum em valor de mercado por instantes, a liquidez em dólar digital virou uma força central para negociação, crédito e reserva de valor dentro do setor.
Ouro tokenizado entra na narrativa de RWA
O XAUT também reforça a tese de tokenização de ativos reais, ou RWA. O ouro é um ativo antigo, mas sua versão tokenizada pode circular como garantia, ser integrada a plataformas de crédito e funcionar como ponte entre investidores tradicionais e infraestrutura cripto.
Esse é o mesmo pano de fundo de outras iniciativas recentes de tokenização. Em junho, o CriptoBR destacou que a DTCC levou a tokenização de Wall Street à Stellar, enquanto a BNB Chain chegou a US$ 3,6 bilhões em RWAs no primeiro trimestre.
A diferença é que o ouro tokenizado tem uma narrativa própria: ele combina proteção patrimonial, liquidez e colateral. Para investidores que já mantêm exposição ao metal, a promessa é transformar um ativo historicamente passivo em uma peça mais ativa dentro do mercado de crédito digital.
Mesmo assim, o produto não elimina riscos. O usuário continua exposto à custódia, à liquidez do token, às regras da plataforma e à capacidade das empresas de manterem transparência sobre lastro e operações. O avanço da Tether e da Ledn mostra que o crédito cripto está voltando, mas agora precisa convencer um público bem mais cético.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





