A campanha para obrigar o Banco Nacional Suíço a manter Bitcoin em suas reservas deve ser encerrada após reunir apenas cerca de metade das 100 mil assinaturas exigidas. O caso mostra que, mesmo em um país favorável à criptoeconomia, bancos centrais seguem resistentes a tratar BTC como ativo oficial de reserva.
A iniciativa suíça que tentava colocar o Bitcoin nas reservas do Banco Nacional Suíço (SNB) deve ser abandonada depois de não atingir o número mínimo de assinaturas para levar o tema a referendo nacional. Segundo a Reuters, o grupo responsável pela proposta reuniu cerca de 50 mil apoios, metade das 100 mil assinaturas necessárias pela legislação do país.
O movimento queria alterar a Constituição da Suíça para obrigar o banco central a manter Bitcoin ao lado de ouro e moedas estrangeiras. Na prática, a proposta buscava transformar o BTC em parte do arsenal oficial de reservas monetárias do país, mas o prazo está perto do fim e os organizadores já indicaram que deixarão a iniciativa expirar.
Campanha queria Bitcoin ao lado do ouro
A chamada Bitcoin Initiative tinha 18 meses para convencer cidadãos suíços a apoiar a mudança constitucional. A ideia era simples, mas politicamente ambiciosa: incluir o Bitcoin entre os ativos que o SNB deveria guardar como reserva, abrindo caminho para uma alocação institucional inédita em uma das economias mais tradicionais da Europa.
Yves Bennaïm, fundador da campanha, disse à Reuters que o grupo sabia desde o início que a tentativa era “um tiro longo”. Ainda assim, ele defendeu que a mobilização ajudou a colocar o debate sobre reservas digitais na agenda pública suíça.
O tema não é novo para o público do CriptoBR. Em 2024, a iniciativa popular para colocar Bitcoin nas reservas da Suíça já havia chamado atenção por usar um dos mecanismos mais fortes da democracia direta do país. Agora, o desfecho indica que o apoio social ainda não foi suficiente para forçar uma votação nacional.
Banco central suíço manteve resistência
O SNB rejeita a ideia de incluir criptomoedas em suas reservas. O argumento central é que ativos como Bitcoin ainda não atendem aos critérios de liquidez, segurança e preservação de valor exigidos para uma reserva monetária oficial. Para bancos centrais, a capacidade de expandir ou reduzir o balanço com previsibilidade pesa mais do que o potencial de valorização de longo prazo.
Esse ponto é importante porque separa duas discussões diferentes. Uma coisa é uma empresa, fundo ou tesouraria privada comprar Bitcoin como estratégia de diversificação. Outra é um banco central assumir volatilidade em um ativo que precisa sustentar política monetária, liquidez e confiança institucional.
Mesmo assim, o debate global segue avançando. Nos Estados Unidos, a Casa Branca já prometeu mais detalhes sobre uma possível reserva estratégica de Bitcoin, enquanto bancos tradicionais continuam ampliando serviços de custódia e infraestrutura para ativos digitais, como no caso do BNY em Abu Dhabi.
O que muda para o mercado
No curto prazo, o fracasso da campanha suíça não altera a estrutura do mercado de Bitcoin. O SNB já não comprava BTC, e a proposta ainda precisaria passar por referendo antes de virar obrigação constitucional. O impacto maior é simbólico: mostra que transformar Bitcoin em reserva oficial continua sendo uma barreira política alta, mesmo em jurisdições com forte ecossistema cripto.
Para os defensores da tese, a Suíça perderia a chance de reforçar sua imagem de neutralidade financeira com um ativo global e descentralizado. Para os críticos, o resultado confirma que bancos centrais ainda enxergam volatilidade e liquidez como obstáculos difíceis de ignorar.
A leitura mais equilibrada é que o debate não acabou. Ele apenas saiu do campo do referendo suíço por enquanto. À medida que ETFs, custódia bancária e tesourarias corporativas amadurecem, a pressão para discutir Bitcoin em reservas soberanas tende a continuar — mas, por ora, os bancos centrais seguem escolhendo prudência antes de pioneirismo.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





