Relevantes figuras femininas falam sobre representatividade no mercado de criptomoedas

Em 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. A data remete aos dez anos de fortes movimentos, organizados pela força de trabalho feminina ao redor do mundo, no início do século XX. Atualmente, o dia 8 de março é um lembrete das conquistas das mulheres, mas também das lacunas que ainda impossibilitam a igualdade de gênero.

Nesta data, relevantes figuras femininas do mercado de criptomoedas compartilharam com o Cointelegraph Brasil suas perspectivas sobre o que já foi conquistado nesse novo mercado, e quais os desafios ainda enfrentam.

Conquistando espaço

Assim como no mercado financeiro tradicional, o mercado cripto ainda tem, em sua maioria, homens nas posições de liderança, avalia Inaiara Florêncio, Diretora de Estratégia de Conteúdo e Influência do Mercado Bitcoin.

“Mas tenho visto um movimento importante de mulheres se organizando, acolhendo e trazendo outras consigo. Apesar de ainda existir uma desigualdade significativa entre os gêneros no setor, as mulheres estão conquistando espaço e assumindo posições de liderança”, salienta Florêncio.

Como exemplos do crescente número de organizações dirigidas por mulheres, ela menciona as iniciativas EVE e Cora. 

Quem também dá destaque à ainda baixa representatividade feminina no mercado de criptomoedas é Carolina Mello, Diretora de Marketing da Nodle. O que se destaca nesse cenário, aponta Mello, é a resiliência das mulheres no mercado cripto.

“Estamos participando, liderando e fundando nossos próprios projetos e unindo esforços para contribuir na construção de um ecossistema mais igualitário, inclusivo e descentralizado. E, em paralelo a isso, existe um movimento de alguns players do setor para criar mecanismos para tornar o ecossistema mais equitativo. É um trabalho contínuo de celebração e luta pela ocupação desses e de outros espaços”, afirma Mello.

Para Amanda Marques, CMO da Lumx Studios, o estágio inicial do mercado de criptomoedas e Web3 no geral é um ponto positivo. “Em contraste com o mercado financeiro e corporativo, que é predominantemente dominado por homens de forma estrutural, venho observando uma oportunidade de moldar a cultura desde o início quanto ao protagonismo das mulheres no mercado cripto”, diz Marques.

Assim como Mello e Florêncio, no entanto, Marques também destaca as disparidades enfrentadas pelas mulheres no mercado, mas se declara otimista em relação ao protagonismo feminino. 

Embora eu não esteja pronta para rotular esse progresso como uma “conquista”, dada a natureza das disparidades que ainda enfrentamos em relação ao nosso papel no mercado de forma geral, sinto-me otimista em relação ao nosso protagonismo no longo prazo. “À medida que mais comunidades e mulheres surgem com o intuito de empoderar e capacitar tantas outras, mais espaço é aberto e ambientes seguros são criados para o desenvolvimento das mulheres no meio tech em geral”, completa.

Liliane Tie, professora e iniciadora do movimento Women in Blockchain, aponta que a presença de mulheres em espaços, virtuais ou presenciais, dentro do mercado cripto, com protagonismo e representatividade, é uma conquista. Ela acrescenta que, nesses mesmos espaços, o público feminino nem sequer era notado ou esperado como parte do público em um passado ainda recente.

“E a permanência das mulheres nestes espaços também é uma conquista importante, para que outras mulheres não desistam deste mercado, mas busquem se informar mais sobre todos os aspectos que permeiam essa nova economia digital. Os desafios agora são outros e bem mais complexos”, acrescenta Tie.

A maior participação feminina no mercado de blockchain é importante, aumentando a inclusão e diversidade, avalia Juliana Walenkamp, diretora de vendas institucionais da BitGo. Além disso, a inclusão de mulheres nesta indústria cria novas pautas, que precisam estar em discussão no mundo atualmente.

“Apesar de estarmos em número menor, me inspiro continuamente pelo papel e presença de mulheres de destaque, como a Elizabeth Stark da Lightning Labs, Kathleen Breitman da Tezos, Meltem Demirors da CoinShares, entre tantas outras que desempenham papéis importantíssimos em várias empresas. Ver o envolvimento crescente de mulheres na indústria cripto demonstra um sinal de maior amadurecimento do setor, encorajando ainda mais a entrada de novas profissionais”, diz Walenkamp.

A diretora de vendas institucionais da BitGo ainda comenta que, se a blockchain deve ser interpretada como uma tecnologia do futuro, “é impossível pensarmos nesse futuro sem mais mulheres líderes”. 

Na mesma linha de outras declarações femininas, Vanessa Butalla, diretora executiva de Jurídico, Compliance e Regulação do Grupo 2TM, afirma que a inclusão e equidade de mulheres no mercado cripto é “um desafio relevante e necessário”. Por ser um ecossistema formado pela interseção dos mercados de tecnologia e finanças, tradicionalmente dominados pelo público masculino, o mercado cripto herda esta disparidade.

“Mas as mulheres vêm conquistando mais espaço no mundo cripto e blockchain, em todas as suas frentes, desde novos negócios a regulação. Já vemos diversos projetos capitaneados por mulheres, assim como estudos técnicos e discussões regulatórias que estão ajudando a transformar a economia, e trazer mais inovação e segurança para os consumidores e investidores”, pondera Butalla.

Além de serem importantes para o crescimento de qualquer mercado, a executiva do Grupo 2TM, as mulheres são um público relevante para o consumo dos produtos relacionados aos criptoativos. Isso torna ainda mais importante a presença feminina no desenvolvimento destes mesmos produtos. 

“Ainda estamos muito distantes de ter um ambiente equânime em termos de inclusão de mulheres no mercado cripto/blockchain, mas é muito animador acompanhar tantas mulheres incríveis dedicadas ao seu desenvolvimento e abrindo caminho para tantas outras”, acrescenta Butalla.

Sobre a utilização dos produtos do mercado de criptomoedas, Carolina Correia, Head de Operações da Coinext, destaca que o interesse das mulheres pelo mercado cripto tem crescido ano a ano. “Dados da Receita Federal mostram que, em janeiro deste ano, pouco mais de um quarto das movimentações foram feitas pelo público feminino”, diz Correia.

A executiva da Coinext menciona ainda dados da exchange, revelando que a média do primeiro investimento para negociações com criptomoedas chega a ser 1,4 vez maior que no público masculino na plataforma. 

“Isso mostra que as mulheres demoram mais a entrar no mercado, mas chegam com muito mais confiança, pois procuram entender melhor antes de investir. E isso é muito positivo, ao trazer mais maturidade e segurança para este mercado”, avalia a Head de Operações da Coinext. Ela salienta, também, o crescimento da representatividade feminina no mercado de criptomoedas.

Carol Santos, fundadora da iniciativa educacional Educar+, é mais uma voz que aponta a disparidade entre a presença de homens e mulheres no mercado cripto. Ela acrescenta que, se há uma entrada menor de mulheres neste setor, a probabilidade de presença feminina em posições de liderança é reduzida. 

“Independente do mercado, as mulheres devem ser parte ativa dele. Quanto maior for a presença feminina, maiores são as iniciativas que efetivamente impactam a vida de um número maior de pessoas. Temos conquistado nossos espaços no mercado cripto, e eu vi isso recentemente no evento ETHDenver, com uma presença feminina maior do que em outros eventos dos quais participei. Mesmo assim, continuamos sendo minoria”, diz Santos.

Longe do ideal

Conforme destacado pela fundadora da Educar+, ainda existem muitos desafios enfrentados pelas mulheres, em termos de igualdade, no mercado de criptomoedas. Amanda Marques, da Lumx, diz que os problemas enfrentados no mercado cripto pelo público feminino, não surpreendentemente, são comuns a outros setores.

“Eu poderia citar questões específicas, como a desigualdade salarial e a falta de políticas e práticas que apoiem a diversidade e a inclusão. Infelizmente, esses problemas ainda são comuns em muitas empresas, e podem ser difíceis de identificar, muitas vezes mascarados pela própria cultura organizacional”, declara Marques.

A CMO da Lumx aponta ainda dores específicas enfrentadas por mulheres que empreendem no mercado cripto, como a dificuldade de acessar financiamento. “Isso, muitas vezes, se torna uma barreira para crescer em um setor tão competitivo”, acrescenta.

Juliana Walenkamp, da BitGo, diz que o ecossistema criptoativos é uma extensão do mercado de tech com o mundo financeiro, “e isso inclui o problema que esses dois nichos possuem de falta de diversidade”. Por isso, Walenkamp avalia que os maiores desafios são “ter o mesmo espaço, voz e oportunidades”. “Democratizar e aumentar a igualdade de gênero traria mudanças positivas para o mercado, apoiando nossa capacidade de inovação”, diz Walenkamp.

A oportunidade de romper com conceitos tecnológicos antigos que o setor de blockchain deve ser também utilizada para “moldar novas culturas organizacionais e criar uma gestão mais inclusiva e justa”, complementa a diretora de vendas institucionais da BitGo. “Afinal, diferentes perspectivas, percepções e ideias são cada vez mais importantes no mercado que estamos construindo.”

Carolina Correia, da Coinext, também aponta que as mulheres ainda passam por desafios específicos em diversas áreas. No mercado cripto, que fala sobre dinheiro, um “assunto historicamente muito masculinizado” em sua visão, não é diferente. O resultado disso, na prática, é um ambiente machista e preconceituoso, que a Head de Operações da Coinext logo notou ao chegar no mercado, em 2019.

“E o maior desafio era ganhar respeito mostrando que eu também podia entender, falar sobre dinheiro e criptomoedas, e negociar. E isso inclui uma conversa com investidores, colegas de mercado ou como líder. A presença de mulheres trabalhando neste mercado, ou investindo em criptomoedas, contribui muito para a popularização e maior acesso das pessoas a ele”, diz a Head de Operações da Coinext.

A falta de representatividade feminina no mercado cripto não é só um desafio em si, mas também gera um forte senso de autoexigência, diz Carolina Mello, da Nodle. “Por ser um mercado majoritariamente masculino, nós precisamos provar o tempo inteiro que somos boas o suficientes e que sabemos do que estamos falando”, explica Mello.

Além do que expôs, a Diretora de Marketing da Nodle acrescenta como desafio a luta constante por igualdade de gênero no mercado de criptomoedas.

Na visão de Liliane Tie, da Women in Blockchain, um dos grandes desafios das mulheres no mercado cripto é encontrar respostas para importantes perguntas. 

“Para aquelas que dominam como poucas as técnicas e as ferramentas atuais, mas também os meandros desse setor, os maiores desafios são encontrar caminhos para as respostas a estas perguntas: qual ‘nova economia’ estamos ajudando a construir? Em qual ‘nova economia’ as mulheres deveriam, quando podem, investir? Quão segura será para nós, mulheres, a sociedade resultante dessa ‘nova economia’?”, diz.

“Precisamos lembrar sempre quem somos e de onde viemos, e somos bem diversas como ‘mulheres brasileiras’. E nos conscientizarmos do momento crítico que estamos atravessando. Se estamos deixando outras mulheres para trás, não é uma ‘nova economia’. Não é porque é digital, que uma economia é ‘nova’. Para refletirmos. Não só nós, mulheres, mas toda a sociedade”, conclui Liliane Tie.

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