Sete grandes pools de mineração de Bitcoin aderiram ao grupo de trabalho do Stratum V2, colocando perto de 75% do hashrate global atrás de um padrão aberto. A mudança pode dar mais autonomia aos mineradores na escolha de transações e reduzir um dos pontos de concentração mais criticados da rede.
Sete dos maiores participantes da mineração de Bitcoin entraram no grupo de trabalho do Stratum V2, protocolo aberto que busca modernizar a comunicação entre pools e mineradores. A adesão de ANTPOOL, Block, DMND, F2Pool, Foundry, MARA Foundation e SpiderPool coloca quase três quartos do hashrate global alinhados a um padrão que promete devolver aos mineradores parte do controle sobre a construção dos blocos.
O ponto central é simples, mas relevante: no modelo atual, a seleção de transações fica, em grande parte, nas mãos dos operadores das pools. Com o Stratum V2, mineradores individuais podem montar seus próprios templates de bloco, reduzindo a dependência operacional de poucas entidades. Para uma rede que se vende como resistente à censura, isso importa tanto quanto o preço do Bitcoin no curto prazo.
O que muda com o Stratum V2
Segundo o anúncio do Stratum Protocol, o grupo quer manter o Stratum V2 como uma especificação pública e neutra, voltada a eficiência, privacidade, segurança e autonomia dos mineradores. O protocolo foi criado para substituir gradualmente o Stratum V1, padrão ainda dominante na indústria.
Na prática, a atualização não redistribui automaticamente o hashrate entre mais empresas. Foundry, AntPool, F2Pool, SpiderPool e MARA continuam sendo nomes de peso no setor. A diferença está em quem decide quais transações entram nos blocos minerados por esses participantes. De acordo com o CoinDesk, Foundry responde por 34,2% do hashrate global, AntPool por 14,2%, F2Pool por 11,3%, SpiderPool por 10,5% e MARA Pool por 4,7%.
Esse desenho ajuda a separar duas discussões que costumam ser tratadas como uma só. A concentração de hashrate segue sendo uma preocupação estrutural, mas o risco de censura ou ordenação centralizada de transações depende também de quem constrói os blocos. O Stratum V2 mira exatamente esse segundo ponto.
Por que isso importa para o Bitcoin
A entrada de grandes pools dá tração a um projeto que existe desde 2022, quando Braiins e Spiral ajudaram a fundar o grupo de trabalho. Até agora, a adoção era vista como limitada. Com players de escala entrando na conversa, o protocolo ganha um caminho mais claro para testes e implantação em produção.
O movimento chega em um momento sensível para os mineradores. A receita por unidade de poder computacional segue pressionada após o halving, e o setor ainda lida com alta dificuldade de rede, competição por energia e margens apertadas. Nesse ambiente, qualquer ganho de eficiência ou redução de dependência operacional tende a ser observado de perto.
O CriptoBR já mostrou como a mineração passou a ocupar espaço além da disputa por blocos, inclusive em casos de uso de calor de mineração de Bitcoin na Finlândia e em modelos alternativos como o Pool Parasite no Bitcoin. A discussão agora é mais técnica, mas toca o mesmo ponto: como manter a rede funcional sem concentrar poder demais em poucos intermediários.
Adoção ainda não é garantia de descentralização
Apesar do avanço, a adesão ao grupo de trabalho não significa que todo o hashrate dessas pools já esteja operando com Stratum V2 de forma plena. A implementação tende a ser gradual, porque envolve infraestrutura, softwares de mineração, compatibilidade entre participantes e incentivos econômicos.
Também não há promessa de impacto direto no preço do BTC. A notícia é mais importante para a saúde de longo prazo da rede do que para uma leitura imediata de mercado. Ainda assim, em um período em que o Bitcoin voltou a reagir a dados macroeconômicos dos EUA, avanços de infraestrutura ajudam a lembrar que a tese da rede não depende apenas de fluxo financeiro ou ETFs.
Se a adoção avançar, o Stratum V2 pode reduzir a capacidade de uma pool impor políticas de transação a todos os mineradores conectados a ela. Isso não resolve todos os dilemas de centralização do Bitcoin, mas ataca uma camada concreta do problema — e por isso a entrada de pools com cerca de 75% do hashrate merece atenção.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





