Pesquisa da Nomura com 518 profissionais de investimento no Japão mostra que 65% já enxergam cripto como diversificador de portfólio. O dado reforça a migração do interesse institucional da tese especulativa para estratégias de alocação, yield e tokenização.
Uma nova pesquisa da Nomura com a Laser Digital indica que o discurso institucional sobre cripto está mudando de tom. Segundo o levantamento, 65% dos profissionais de investimento entrevistados no Japão já veem os ativos digitais como uma ferramenta de diversificação de portfólio, enquanto 79% dos que consideram exposição ao setor dizem que pretendem investir em até três anos.
O estudo ouviu 518 profissionais entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, incluindo investidores institucionais, family offices e organizações de interesse público. O retrato é de um mercado mais aberto ao setor, mas ainda cauteloso no tamanho das apostas: entre os que planejam entrar em cripto, 60% esperam alocar de 2% a menos de 5% do portfólio.
Sentimento melhora e uso vai além da alta de preço
O avanço não aparece só na tese de diversificação. A parcela de entrevistados com visão positiva sobre cripto para os próximos 12 meses subiu para 31%, contra 25% na edição anterior da pesquisa. Ao mesmo tempo, a fatia com perspectiva negativa caiu de 23% para 18%.
Na prática, isso sugere que o investidor institucional está deixando de tratar o setor apenas como aposta direcional em Bitcoin e Ethereum. A própria pesquisa mostra interesse crescente em estratégias de staking, mineração, crédito com garantia, derivativos e ativos tokenizados, todos acima de 60% de interesse entre os respondentes.
Esse movimento conversa com a expansão de produtos regulados em mercados relevantes. Como o CriptoBR mostrou recentemente na estreia do ETF de Bitcoin da Morgan Stanley, o apetite institucional costuma ganhar força quando a infraestrutura chega com uma embalagem familiar. O mesmo vale para a nova rodada de fluxo nos ETFs de Bitcoin que voltaram a atrair centenas de milhões de dólares.
Japão avança em regras e ajuda a reduzir a fricção
A Nomura atribui parte dessa mudança ao ambiente regulatório. O grupo destaca que o Japão avançou nas discussões sobre classificação de criptoativos, tributação e proteção ao investidor ao longo do último ano. Esse pano de fundo reduz uma das principais barreiras para as teses institucionais: a incerteza jurídica.
Fora do Japão, a leitura também é parecida. Produtos como ETFs spot e ativos tokenizados ajudaram a tornar o setor mais compreensível para gestores tradicionais. Esse processo já aparece em outras frentes do mercado. Em março, por exemplo, a corrida institucional por Bitcoin ganhou novo impulso com compras bilionárias, reforçando que a adoção não depende mais só de narrativas de curto prazo.
Outro ponto relevante da pesquisa é a leitura sobre stablecoins. Cerca de 63% dos participantes identificaram usos potenciais para esses ativos, com destaque para gestão de tesouraria, pagamentos internacionais, investimento em cripto e compra de valores mobiliários tokenizados. Entre iene, dólar e euro, as stablecoins emitidas por grandes instituições financeiras foram as que receberam maior nível de confiança.
O que ainda trava a adoção
Nem tudo virou consenso. Os entrevistados ainda citam volatilidade elevada, risco de contraparte, falta de modelos consolidados de valuation e incerteza regulatória residual como entraves relevantes. Em outras palavras, o mercado institucional parece menos preocupado em decidir se vai olhar para cripto e mais focado em como fazer isso com gestão de risco adequada.
Esse detalhe é importante porque muda a natureza da demanda. Se antes a entrada institucional estava concentrada em exposição simples ao preço, agora ela tende a se espalhar por infraestrutura, renda, colateralização, tokenização e liquidez em stablecoins. Para o mercado, isso pode significar uma base de capital mais estável e menos dependente de movimentos puramente especulativos.
Segundo a Nomura, o debate está migrando do “vale a pena investir?” para o “qual é a melhor forma de investir?”. Para um setor que passou anos tentando provar sua legitimidade diante do dinheiro institucional, essa talvez seja a mudança mais relevante do levantamento.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





