A MegaETH encerrou a aceleradora Mega Mafia após dois anos, mesmo depois de apoiar cerca de 20 startups que levantaram aproximadamente US$ 80 milhões. A decisão expõe um problema recorrente em ecossistemas cripto: gerar projetos promissores não garante que valor, usuários e liquidez permaneçam na rede.
A MegaETH decidiu encerrar a Mega Mafia, sua aceleradora de startups Web3, depois de concluir que o programa criou valor para os projetos apoiados, mas não devolveu valor suficiente ao próprio ecossistema. A informação foi compartilhada por Shuyao Kong, cofundadora da MegaETH, em publicação no X.
Segundo a equipe, a aceleradora apoiou cerca de 20 times em duas turmas, com aproximadamente US$ 80 milhões levantados em rodadas que foram de pre-seed a Series A. Ainda assim, parte relevante dos aplicativos mais bem-sucedidos deixou de construir diretamente sobre a MegaETH, migrando para redes como Base, Monad ou estratégias multichain.
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Por que a aceleradora foi encerrada
A tese inicial da Mega Mafia era simples: aproximar fundadores da infraestrutura da MegaETH, oferecer suporte técnico e comercial e deixar que o alinhamento com a rede viesse naturalmente. Na prática, a MegaETH não tomou equity, direitos de governança ou participação econômica direta nos projetos incubados.
Esse modelo ajudou startups a levantar capital e ganhar tração, mas criou uma assimetria. Os aplicativos receberam engenharia, auditorias, suporte de liquidez, conexões com investidores e apoio de mercado, enquanto a rede não capturou de forma proporcional a atividade gerada. Kong resumiu o problema ao dizer que pouco desse valor “escorreu” de volta para a MegaETH.
O caso importa porque mostra uma tensão comum em blockchains de alta performance: atrair builders é diferente de reter produto, usuários e receita. O CriptoBR já acompanhou movimento parecido quando a Ethereum criou uma frente para atrair bancos, tentando transformar infraestrutura em demanda real. A diferença é que, no caso da MegaETH, a equipe agora quer reduzir a dependência de times externos.
O que muda para a MegaETH
Com o fim da Mega Mafia, a MegaETH afirma que continuará apoiando projetos existentes, mas não abrirá uma terceira turma. O foco passa a ser o desenvolvimento de aplicativos próprios e produtos desenhados especificamente para tirar proveito da infraestrutura, da carteira e da stablecoin do ecossistema.
A nova fase foi descrita como uma aposta em aplicações “OMEGA”, isto é, produtos que dependem das características específicas da MegaETH para funcionar bem. A lógica é manter uma relação mais direta com usuários finais, encurtar o ciclo de feedback e controlar melhor como a atividade econômica volta para a rede.
A estratégia conversa com uma tendência maior do mercado: redes e protocolos estão tentando sair do papel de infraestrutura neutra para disputar a camada de aplicativos. Essa disputa aparece tanto em ecossistemas multichain, como na movimentação envolvendo projetos na Monad, quanto em ferramentas que buscam execução direta do usuário, como a operação multichain da Maestro com foco em TON, Base e BNB.
O recado para outros ecossistemas
A decisão não significa que aceleradoras cripto perderam utilidade. O programa da MegaETH ajudou startups a captar capital, receber suporte técnico e ganhar visibilidade em eventos globais. O ponto é outro: sem mecanismos claros de alinhamento, os melhores projetos podem usar a rede como trampolim e depois buscar liquidez, usuários ou incentivos em outro lugar.
Para holders e desenvolvedores, a mudança deixa uma leitura pragmática. Em ciclos anteriores, ecossistemas eram avaliados pelo número de grants, hackathons e anúncios de parcerias. Agora, o mercado tende a cobrar retenção: quais apps continuam ativos, quanto volume permanece na rede e que parte da receita volta para sustentar o token ou a infraestrutura.
A MegaETH ainda preserva a narrativa de blockchain rápida para aplicações on-chain de consumo. Mas, ao encerrar a Mega Mafia, a própria equipe reconhece que velocidade técnica e captação de startups não bastam. A próxima prova será mostrar se produtos próprios conseguem transformar essa infraestrutura em uso recorrente.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





