A Kraken disse ter enviado 56 milhões de formulários 1099-DA ao IRS referentes a 2025, com um terço cobrindo transações abaixo de US$ 1. Para a exchange, o dado mostra que a regra atual gera custo de compliance desproporcional para usuários de cripto, especialmente em staking e micropagamentos.
A Kraken afirmou nesta quarta-feira (22) que enviou 56 milhões de formulários fiscais 1099-DA ao Internal Revenue Service (IRS), a Receita Federal dos Estados Unidos, referentes às transações em cripto de 2025. Segundo a exchange, cerca de 18,5 milhões desses registros eram de operações abaixo de US$ 1, enquanto mais da metade ficou em US$ 10 ou menos.
O volume chamou atenção porque expõe um problema prático para o mercado. Na avaliação da empresa, a regra atual transforma recompensas mínimas de staking, pequenos pagamentos e movimentações rotineiras em um passivo de compliance para usuários e corretoras. O debate ganha força num momento em que Washington volta a discutir o tratamento tributário de ativos digitais e tenta destravar regras mais claras para o setor.
Kraken diz que regra atual cria custo alto para o investidor
Em texto publicado em seu blog de política pública, a Kraken afirmou que 74,3% dos formulários emitidos ficaram abaixo de US$ 50 e apenas 8,5% superaram US$ 600. Para a empresa, isso mostra que o sistema atual captura uma massa de microtransações com impacto fiscal potencialmente baixo, mas com custo alto de reconciliação para quem precisa declarar.
A exchange também destacou que os formulários de 2025 mostram apenas o valor bruto das vendas, sem base de custo. Na prática, isso obriga o contribuinte a reconstruir manualmente parte do histórico para descobrir se houve ganho ou perda de capital. Como já mostramos na votação da Câmara dos EUA sobre a regra de corretores da IRS para DeFi, o tema virou uma frente política importante para o mercado cripto americano.
Segundo a Kraken, um investidor ativo pode gastar entre US$ 250 e US$ 500 por ano apenas com ferramentas e processos adicionais de declaração. A empresa argumenta que esse peso fica ainda mais visível em casos de staking, quando recompensas pequenas recebidas ao longo do ano podem gerar uma enxurrada de registros tributários.
Micropagamentos com Bitcoin e staking estão no centro do problema
Um dos pontos centrais levantados pela exchange é a ausência de uma regra de minimis, isto é, uma faixa de isenção para pequenos pagamentos com ativos digitais. No exemplo dado pela companhia, até comprar uma refeição com Bitcoin pode disparar um evento tributável, exigindo cálculo de custo, ganho ou perda sobre uma fração do ativo.
Essa discussão conversa com um debate mais amplo sobre adoção prática de cripto no dia a dia. Em tese, usar ativos digitais para pagamentos deveria ficar mais simples à medida que a infraestrutura amadurece, como vimos recentemente na expansão dos pagamentos com stablecoins da DoorDash para 40 países. Sem uma regra mais enxuta para pequenas despesas, porém, a fricção tributária continua sendo um freio relevante.
A Kraken também critica o tratamento dado ao staking nos EUA. Hoje, as recompensas costumam ser tributadas no momento do recebimento, com base no preço de mercado daquele dia, mesmo quando o investidor não vende os tokens. Se o preço cair depois, o contribuinte pode acabar com uma conta de imposto maior do que o valor atual do ativo. O tema ganhou ainda mais peso após a guinada regulatória recente, incluindo a decisão da SEC de permitir staking para instituições em parte do mercado cripto dos EUA.
Por que isso importa para o mercado cripto
O movimento da Kraken tenta transformar uma reclamação operacional em argumento político. Ao expor que milhões de formulários tratam de valores irrisórios, a exchange procura fortalecer a defesa de uma isenção para micropagamentos e de uma revisão da tributação sobre recompensas de staking. A companhia afirma que seus sistemas já comportam modelos alternativos de reporte, mas que qualquer mudança depende de autorização legal.
Para o mercado, a discussão vai além da Kraken. Se o custo de declarar cada pequena movimentação continuar alto, o uso cotidiano de cripto como meio de pagamento tende a seguir restrito, enquanto investidores menores continuam arcando com uma complexidade que não existe em outras classes de ativos com a mesma intensidade. Em um setor que tenta ganhar escala fora da especulação, esse detalhe tributário pode pesar mais do que parece.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





