A Kraken abriu acesso ao IPO da SpaceX por meio do xStocks, oferecendo a clientes elegíveis uma versão tokenizada das ações antes da estreia pública. O produto SPCXx será lastreado 1:1 nas ações e mira negociação 24/7, reforçando a disputa para levar ativos tradicionais para trilhos cripto.
A Kraken abriu uma nova frente na corrida por ações tokenizadas ao liberar acesso ao IPO da SpaceX por meio do xStocks, estrutura da Payward para levar instrumentos de mercado tradicional a plataformas cripto. A oferta permite que clientes elegíveis registrem interesse antes da listagem e, caso recebam alocação, recebam SPCXx, um token lastreado 1:1 nas ações da companhia.
Segundo a Kraken, o acesso está disponível para clientes em mais de 110 mercados, incluindo o Espaço Econômico Europeu, mas com restrições em jurisdições como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido. A empresa afirma que os tokens poderão ser negociados 24 horas por dia, inclusive no primeiro fim de semana após a listagem, quando corretoras tradicionais ficam fechadas.
Como funciona o IPO tokenizado
No modelo descrito pela Payward, investidores enviam uma indicação de interesse não vinculante dentro da faixa de preço do IPO. A demanda é agregada pela infraestrutura do xStocks e, no dia da listagem, as ações alocadas são tokenizadas e entregues aos clientes elegíveis na exchange ou em plataformas parceiras.
A SpaceX informou em comunicado de 4 de junho que lançou o roadshow para uma oferta pública inicial de 555.555.555 ações Classe A, com preço esperado de US$ 135 por ação. A companhia também solicitou listagem na Nasdaq Global Select Market e na Nasdaq Texas sob o ticker SPCX. O valor coloca o IPO entre os eventos mais observados do mercado em 2026.
Para o setor cripto, o ponto central não é apenas a SpaceX. A novidade mostra exchanges tentando disputar um pedaço do mercado de capitais, usando liquidação on-chain, negociação contínua e portabilidade entre carteiras como diferenciais. É o mesmo movimento que já apareceu quando o xStocks levou ações tokenizadas à BNB Chain e quando a Binance preparou sua própria frente com bStocks.
Por que isso importa para RWA
A tese por trás do produto é simples: transformar ações, ETFs e futuras ofertas públicas em ativos programáveis. Na prática, isso aproxima o mercado de RWA, sigla para ativos do mundo real tokenizados, de um público que já usa exchanges cripto para operar stablecoins, Bitcoin e DeFi.
A Payward diz que a estrutura xStocks já processou mais de US$ 32 bilhões em volume desde junho de 2025, com mais de 133 mil holders únicos. Esses números ajudam a explicar por que exchanges querem ir além de listagens spot tradicionais: ações tokenizadas podem aumentar retenção, criar novos pares de negociação e abrir espaço para integrações com protocolos DeFi.
O avanço também vem com riscos. Tokens lastreados dependem de custódia, regras de elegibilidade, obrigações regulatórias e da qualidade da ponte entre o papel tradicional e sua representação on-chain. Por isso, a promessa de negociação 24/7 não elimina dúvidas sobre liquidez, governança, jurisdição e tratamento de eventos corporativos.
Disputa por acesso ao varejo
A Kraken apresenta o IPO Access como uma tentativa de reduzir a distância entre investidores institucionais e varejo global. Historicamente, alocações no preço de oferta ficam concentradas em bancos, clientes private e plataformas com relacionamento direto com coordenadores da oferta. O xStocks tenta reorganizar essa etapa usando a base de usuários de exchanges.
A estratégia conversa com uma tendência mais ampla de tokenização institucional. Como o CriptoBR mostrou em movimentos recentes da DTCC na Stellar, a infraestrutura financeira tradicional está testando formas de levar registro, liquidação e distribuição de ativos para redes compatíveis com blockchain.
Se o lançamento da SpaceX entregar volume relevante, o caso pode virar vitrine para novos IPOs tokenizados. Se houver fricção regulatória ou baixa liquidez, servirá como alerta de que acesso global não basta: a camada cripto precisa provar que consegue lidar com produtos de mercado de capitais sem transformar conveniência em risco mal precificado.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





