A Índia ordenou que o GitHub remova páginas ligadas ao Bitchat, app de mensagens offline de Jack Dorsey. O caso importa para o mercado cripto porque coloca privacidade, software aberto e comunicação descentralizada no centro de uma disputa regulatória em meio a protestos.
A Índia ordenou que o GitHub remova repositórios ligados ao Bitchat, aplicativo de mensagens offline associado a Jack Dorsey, cofundador do Twitter/X e CEO da Block. A medida foi revelada pelo próprio Dorsey no X nesta sexta-feira (24) e confirmada por veículos como CoinDesk e ThePrint.
O caso chama atenção do mercado cripto porque o Bitchat usa comunicação descentralizada, dispensa conta, número de telefone e servidor central, e se conecta ao ecossistema de privacidade que também atravessa Bitcoin, Nostr e ferramentas de autocustódia. É a mesma tensão que aparece em discussões recentes sobre vigilância financeira, como mostrou o CriptoBR ao cobrir a defesa de Vitalik Buterin por privacidade no Ethereum.
https://x.com/jack/status/2080565084586135773
Ordem mira código aberto em meio a protestos
Segundo o ThePrint, o Indian Cyber Crime Coordination Centre (I4C), órgão ligado ao Ministério do Interior da Índia, pediu que o GitHub desabilite três URLs relacionadas ao Bitchat. A ordem teria sido emitida em 23 de julho de 2026, às 23h16 no horário local, com prazo de três horas para remoção.
O documento, conforme relatado pela publicação indiana, cita a seção 79(3)(b) da Lei de Tecnologia da Informação de 2000 e regras intermediárias de 2021. A justificativa é que aplicativos de mensagem descentralizados e sem infraestrutura central podem dificultar interceptação legal, atribuição de usuários e investigação por autoridades.
A medida aparece em um contexto sensível: manifestantes em Delhi passaram a usar apps de rede mesh por Bluetooth durante protestos ligados ao grupo Cockroach Janta Party (CJP), em meio a relatos de suspensão de internet móvel e uso de bloqueadores de sinal em áreas de mobilização. O ThePrint afirmou, porém, que não conseguiu verificar de forma independente a autenticidade da ordem divulgada por Dorsey.
Como o Bitchat funciona
No repositório público do projeto, o Bitchat é descrito como um app de mensagens peer-to-peer com duas camadas de transporte: uma rede local Bluetooth mesh para comunicação offline e o protocolo Nostr para alcance via internet. O projeto afirma não exigir contas, números de telefone nem identificadores persistentes.
A parte offline permite descoberta automática de pares e retransmissão de mensagens por múltiplos saltos em Bluetooth Low Energy. Já a camada Nostr serve como alternativa para conversas com alcance global, usando relays distribuídos. Na prática, esse desenho reduz a dependência de operadoras, servidores corporativos e pontos únicos de bloqueio.
Esse tipo de arquitetura explica a preocupação de governos em cenários de protesto, mas também mostra por que desenvolvedores de Bitcoin e privacidade veem ferramentas assim como infraestrutura de liberdade digital. Dorsey já vinha aproximando sua atuação pública de temas como Bitcoin, pagamentos e comunicação aberta; o CriptoBR já mostrou esse movimento quando a Block abriu espaço para stablecoins apesar do histórico maximalista do executivo.
Por que isso importa para cripto
A discussão vai além de um app específico. Quando um governo pede a remoção de código em uma plataforma global como o GitHub, o debate toca diretamente em software aberto, resistência à censura e responsabilidade de intermediários. Esses temas são centrais para redes públicas, carteiras não custodiais, protocolos de privacidade e aplicações que tentam operar sem um controlador único.
Para investidores, o impacto imediato não é preço. O ponto é regulatório e cultural: governos estão observando cada vez mais ferramentas que combinam criptografia, comunicação descentralizada e capacidade de operar fora de infraestrutura tradicional. A mesma lógica aparece em pautas sobre rastreamento, compliance e privacidade, como no debate brasileiro sobre software de rastreio de criptoativos.
Também há uma questão prática: mesmo que o GitHub remova URLs específicas, projetos de código aberto podem ser copiados, bifurcados e redistribuídos rapidamente. Segundo o ThePrint, mais de 2 mil forks ligados ao código permaneciam fora do escopo da ordem no momento da publicação.
O episódio reforça uma leitura simples para o setor: privacidade e descentralização deixaram de ser apenas temas técnicos. Elas agora entram em conflitos concretos entre segurança pública, liberdade de expressão, infraestrutura aberta e poder estatal.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





