O mercado de financiamentos imobiliários lastreados em Bitcoin tende a ganhar tração em 2026, com aumento tanto do volume emprestado quanto do número de operações, segundo Mauricio Di Bartolomeo, cofundador e diretor de estratégia da Ledn, empresa especializada em crédito com garantia em criptoativos.
De acordo com ele, entre 30% e 40% dos clientes da Ledn já usam empréstimos contra seus Bitcoins para viabilizar a compra de imóveis, enquanto outras empresas nos EUA também miram o segmento, como a Milo, que oferece soluções de hipoteca com garantia em cripto.
Por que esse modelo atrai um público específico
A tese central é que esse tipo de crédito atende um perfil que costuma sofrer restrições no sistema tradicional. Na visão de Di Bartolomeo, bancos e credores de primeira linha seguem critérios muito concentrados em renda formal (W-2) e pontuação de crédito, o que dificulta a vida de autônomos, empreendedores e investidores cuja riqueza está mais concentrada em patrimônio e ativos digitais.
Já no empréstimo com garantia em Bitcoin, o foco tende a recair mais sobre o valor do colateral (o BTC depositado como garantia) do que sobre o histórico de renda, o que abre caminho para quem “tem ativos, mas não tem o perfil padrão” aceito por uma hipoteca convencional.
O risco do outro lado: volatilidade e chamadas de margem
O ponto fraco do modelo é a própria característica do Bitcoin: a volatilidade. Quando o preço cai, a relação empréstimo-valor (LTV) piora e o tomador pode ser obrigado a aportar mais garantia para manter a operação. Se não conseguir, corre o risco de liquidação da garantia, conforme descreve o relatório.
Regulador dos EUA colocou cripto no radar das hipotecas tradicionais
O debate ganhou força em 2025 após o órgão regulador do setor habitacional dos Estados Unidos, a FHFA, determinar que Fannie Mae e Freddie Mac passem a considerar criptomoedas como ativos em avaliações de risco de hipotecas residenciais, movimento que pode ampliar como a “foto financeira” do tomador é analisada.
Na sequência, a senadora Cynthia Lummis apresentou o projeto “21st Century Mortgage Act of 2025”, propondo tornar obrigatória a consideração de ativos digitais nas análises, além de prever ajustes de mitigação de risco para volatilidade e concentração, e exigências de custódia qualificada.
Mesmo assim, Di Bartolomeo minimizou o impacto imediato dessas sinalizações, argumentando que permitir cripto “entrar na conta” não muda o principal gargalo, que é a forma como renda e capacidade de pagamento são avaliadas pelos credores tradicionais.
A estratégia de comunidade para destravar adoção com segurança
Na leitura de Guilherme Felipe, especialista em crescimento de comunidade, o desafio não é só convencer o mercado de que “existe demanda”, mas criar um caminho claro para dois públicos que quase não se sobrepõem: (1) investidores com grande parte do patrimônio em BTC e baixa aderência ao underwriting clássico; (2) pessoas que já conseguem hipoteca tradicional e não veem vantagem em “prender” BTC como garantia.
A estratégia recomendada foca em educação prática e redução de medo operacional, com três movimentos:
Comunidade de tomada de decisão, não de hype
Conteúdo curto e recorrente explicando LTV, chamadas de margem, cenários de queda e como funciona a custódia, com exemplos numéricos simples.Parcerias que emprestam credibilidade
Conectar a conversa com atores do mundo real: corretores, advogados, contadores e especialistas em risco, para responder dúvidas que travam a conversão (impostos, contrato, compliance, custódia).Ferramentas que viram prova de utilidade
Simuladores e checklists para o usuário entender se faz sentido para o caso dele, antes da abordagem comercial. Isso filtra curiosos e reduz atrito no funil.
As hipotecas lastreadas em Bitcoin devem crescer porque resolvem um problema específico: transformar um ativo digital em liquidez para compra de imóvel sem vender o patrimônio. Ao mesmo tempo, o produto carrega um risco estrutural, a volatilidade do colateral, e depende de comunicação extremamente clara para não virar armadilha para o usuário. Se 2026 for mesmo o ano de aceleração, a disputa não será apenas por taxa e prazo, mas por confiança, educação e execução operacional.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





