Dois estudos publicados nesta terça-feira — um do Google Quantum AI e outro da Caltech com a startup Oratomic — mostram que a criptografia do Bitcoin e do Ethereum pode ser quebrada com muito menos qubits do que se estimava. A ameaça quântica ao mercado cripto deixou de ser ficção científica e agora pressiona a indústria por migração urgente para criptografia pós-quântica.
A computação quântica voltou aos holofotes do mercado cripto nesta terça-feira (31) com dois papers publicados simultaneamente que reduziram drasticamente as estimativas de poder necessário para quebrar a criptografia que protege carteiras de Bitcoin e Ethereum.
O primeiro estudo, do Google Quantum AI, demonstra que a criptografia de curva elíptica de 256 bits (ECC-256) — base da segurança de ambas as blockchains — pode ser quebrada com menos de 500 mil qubits físicos, usando entre 1.200 e 1.450 qubits lógicos. Isso representa uma redução de 20 vezes em relação às estimativas anteriores.
https://x.com/AltcoinGordon/status/1906694289854398621
Caltech e Oratomic vão além: 10 mil qubits bastam
O segundo paper, publicado por pesquisadores da Caltech e da startup Oratomic, foi ainda mais impactante. Utilizando os próprios circuitos quânticos desenvolvidos pelo Google, os pesquisadores mostraram que um sistema de átomos neutros controlados por laser poderia executar o ataque com apenas 10 mil qubits físicos — cerca de 50 vezes menos do que o Google estimou.
Um sistema com cerca de 26 mil qubits seria capaz de quebrar a criptografia ECC-256 em aproximadamente 10 dias, permitindo derivar chaves privadas e assumir o controle de fundos. Para o RSA-2048, usado por instituições financeiras tradicionais, seriam necessários cerca de 102 mil qubits e três meses.
O contexto histórico torna os números ainda mais alarmantes. Em 2012, estimava-se que seriam necessários 1 bilhão de qubits para executar o algoritmo de Shor contra a criptografia moderna. Em 2026, esse número caiu para 10 mil — uma compressão de cinco ordens de magnitude em pouco mais de uma década.
O que está em risco no mercado cripto
A janela de 10 dias torna improvável o cenário de “ataque instantâneo” durante uma transação ao vivo. No entanto, fundos parados em endereços vulneráveis — incluindo carteiras antigas e endereços reutilizados — continuam expostos. Estima-se que cerca de 6,9 milhões de BTC estejam vinculados a endereços potencialmente vulneráveis.
É importante notar que os nove autores do paper da Oratomic são acionistas da empresa, e seis são funcionários. Ou seja, o estudo também funciona como um roadmap para a abordagem de hardware da própria companhia — o que não invalida os resultados, mas exige leitura crítica.
O Google, por sua vez, já trabalha na migração para criptografia pós-quântica desde 2016 e estabeleceu um cronograma de migração até 2029. A empresa recomenda que a comunidade cripto adote criptografia pós-quântica (PQC) o quanto antes, evite reutilizar endereços de carteira e não exponha chaves públicas desnecessariamente.
O estudo menciona que blockchains como Ethereum já possuem iniciativas experimentais com PQC, e projetos como o Bitcoin Quantum testnet já exploram implementações resistentes a ataques quânticos.
O relógio está correndo
A mensagem central dos dois estudos é clara: a pergunta não é mais se computadores quânticos podem quebrar cripto, mas se a indústria consegue migrar antes que o custo do ataque se torne viável comercialmente.
Com o Fear & Greed Index em 11 (Extreme Fear) e o Bitcoin fechando o pior primeiro trimestre da sua história, a ameaça quântica adiciona mais uma camada de pressão sobre um mercado já fragilizado. Investidores e desenvolvedores precisam começar a levar a segurança pós-quântica a sério — antes que seja tarde demais.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





