O Bitcoin encerra o Q1 2026 com queda acumulada de 24%, marcando o primeiro trimestre triplo vermelho da história. ETFs spot registraram US$ 296 milhões em saídas na última semana, e o discurso de Jerome Powell nesta segunda-feira pode definir o tom do Q2.
O Bitcoin chega ao último dia do primeiro trimestre de 2026 negociando em torno de US$ 67.000, acumulando uma queda de aproximadamente 24% desde janeiro — o terceiro pior trimestre já registrado e, pela primeira vez na história, três meses consecutivos no vermelho.
A marca é simbólica e reforça o que os dados já mostram: o otimismo institucional que dominou 2025 encontrou uma parede de realidade em 2026. Inflação persistente, conflito no Oriente Médio e treasuries americanos em alta comprimiram os ativos de risco de forma ampla — e o Bitcoin não escapou.
ETFs reverteram de aliados para pressão vendedora
Os ETFs spot de Bitcoin nos EUA registraram US$ 296 milhões em saídas líquidas na semana de 23 a 28 de março, quebrando uma sequência de quatro semanas consecutivas de entradas. O iShares Bitcoin Trust (IBIT) da BlackRock liderou as retiradas. Como reportamos na última sexta-feira, a reversão sinaliza fragilidade na convicção institucional.
No acumulado do Q1, os ETFs ainda registram entradas líquidas de US$ 18,7 bilhões — mas o dano ao sentimento foi feito entre janeiro e fevereiro, quando a saída atingiu US$ 1 bilhão em um único dia em 30 de janeiro, a pior desde agosto de 2025.
Os ETFs de Ethereum não ficaram imunes: perderam US$ 206 milhões na mesma semana. Solana perdeu US$ 4,2 milhões e XRP conseguiu apenas US$ 2,66 milhões de entradas.
Macro comanda: guerra, inflação e Powell decidem o Q2
O conflito entre Irã e Estados Unidos é o principal vetor de pressão. A disrupção de oferta energética via Estreito de Ormuz mantém o petróleo elevado, alimentando inflação e empurrando as expectativas de corte de juros ainda mais para frente.
Os treasuries americanos subiram pela quarta semana consecutiva. O dólar se fortaleceu. O S&P 500 também encerrou a semana em queda. Nesse cenário, o Bitcoin funciona como ativo de risco — e sofre proporcionalmente.
A semana que define o Q2 começa hoje:
- Segunda (31/03): Discurso de Jerome Powell
- Terça: Confiança do consumidor + JOLTS
- Quarta: ADP + vendas no varejo
- Sexta: Payroll (relatório de emprego)
Se os dados mostrarem desaceleração econômica enquanto a inflação permanece elevada, o cenário de “estagflação” ganha força — e seria o pior resultado possível para ativos de risco como o Bitcoin.
Mineradores e governos também pressionam
O hash price pós-halving atingiu mínima de US$ 28 PH/s/dia em fevereiro, deixando 15% a 20% dos mineradores não-lucrativos. Isso aumenta a probabilidade de vendas de tesouraria para cobrir custos operacionais, especialmente com o petróleo elevado.
O Butão, por exemplo, vendeu cerca de US$ 120 milhões em Bitcoin em 2026, incluindo uma transferência recente de 123,7 BTC rastreada pela Arkham. Não é uma liquidação em massa, mas é pressão constante em uma fita já frágil.
A Strategy, de Michael Saylor, pausou suas compras de Bitcoin após 13 semanas consecutivas de aquisições. Apesar de ter acumulado quase 90 mil BTC no trimestre, a pausa mostra que até os maiores bulls estão calibrando o timing.
O que observar agora
A região de US$ 60.000 a US$ 70.000 é o range de custo médio dos novos compradores. Se o Bitcoin perder os US$ 65.000 com volume, o próximo teste acontece nos US$ 60.000. Se os dados econômicos mostrarem enfraquecimento e Powell sinalizar flexibilidade, há espaço para reconstrução a partir dos US$ 67.000.
Os fluxos dos ETFs nas próximas semanas serão decisivos. Uma semana de saídas é ruído. Duas ou três semanas consecutivas confirmariam uma tendência — e o Q2 abriria com momento de baixa.
O mercado está posicionado e esperando dados. A convicção virá dos números, não das narrativas.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





