A FCA liderou uma operação em oito endereços de Londres para interromper mesas de trading P2P de criptomoedas sem registro. A ação amplia o cerco do Reino Unido ao mercado informal e reforça o foco em lavagem de dinheiro, proteção ao consumidor e fiscalização do setor.
A Financial Conduct Authority (FCA), reguladora financeira do Reino Unido, realizou nesta quarta-feira sua primeira operação coordenada contra o trading peer-to-peer (P2P) ilegal de criptomoedas em Londres. Segundo o órgão, oito locais foram alvo de inspeções em parceria com a HM Revenue & Customs (HMRC) e a South West Regional Organised Crime Unit (SWROCU), com emissão de ordens para cessar as atividades imediatamente.
O movimento importa porque atinge um ponto sensível do mercado cripto: transações diretas entre pessoas, fora de exchanges centralizadas, que podem ser usadas para contornar controles de compliance e facilitar lavagem de dinheiro. Na prática, a FCA deixou claro que não há atualmente traders ou plataformas P2P registrados no país, o que coloca esse tipo de operação sob risco regulatório imediato.
Por que a ofensiva da FCA muda o jogo
De acordo com o comunicado oficial, as autoridades recolheram evidências nos endereços visitados, material que agora alimenta várias investigações criminais em andamento. Steve Smart, diretor executivo de enforcement e market oversight da FCA, afirmou que traders P2P não registrados operam de forma ilegal no Reino Unido e representam risco financeiro para consumidores e para o sistema.
O recado vai além das oito operações. A agência quer mostrar que o mercado informal de cripto também entrou no radar das autoridades, assim como já ocorreu com caixas eletrônicos de criptomoedas e promoções financeiras irregulares. Como o CriptoBR mostrou ao noticiar que o Reino Unido ampliou as regras de declaração de criptomoedas, o país vem endurecendo a supervisão do setor. Em outra frente, o debate regulatório também ganhou força quando o mercado reagiu ao fato de que o Reino Unido descartou uma reserva nacional de criptomoedas, mas manteve o foco em regras para ativos digitais.
Segundo a polícia regional envolvida na operação, traders irregulares podem servir de ponte para que criminosos movimentem, disfarcem e gastem dinheiro ilícito. Isso aproxima a narrativa regulatória de um tema recorrente em vários mercados: a tentativa de separar uso legítimo de cripto da infraestrutura paralela que escapa às regras de prevenção à lavagem de dinheiro.
O que muda para usuários e empresas cripto
Para o investidor, a principal consequência é o aumento do risco ao negociar com intermediários informais. A FCA destacou que consumidores que lidam com operadores não registrados ficam sem acesso a mecanismos formais de proteção, como instâncias de mediação e eventuais esquemas de compensação. Além disso, uma transação feita com fundos de origem criminosa pode gerar dor de cabeça mesmo para quem não participou da atividade ilícita.
Para empresas, a leitura é que o Reino Unido está preparando terreno para um regime mais amplo de licenciamento, cuja implementação deve avançar nos próximos meses. O mercado local já vinha acompanhando essa transição, inclusive após ações anteriores contra exchanges não registradas e operadores de cripto ATMs. A ofensiva desta semana reforça que a janela para atuar em zonas cinzentas está ficando menor.
Em termos de mercado, a notícia não deve mexer diretamente com preços de Bitcoin ou Ethereum, mas pesa sobre a percepção de risco para mesas OTC e arranjos P2P informais em jurisdições mais exigentes. Para quem acompanha compliance e regulação, é mais um sinal de que a próxima fase da adoção institucional virá com fiscalização mais agressiva, não com menos.
A FCA orientou o público a verificar o registro de empresas no seu verificador oficial antes de negociar ativos digitais. Esse tipo de checagem tende a ganhar relevância num momento em que governos apertam o cerco, enquanto investidores ainda buscam alternativas mais baratas ou discretas para comprar e vender cripto. Como vimos também na cobertura sobre a explosão de formulários fiscais enviados pela Kraken ao IRS, o custo regulatório da cripto está subindo em várias frentes ao mesmo tempo.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





