ETFs spot de Bitcoin nos EUA registraram oito dias seguidos de entradas, somando US$ 2,1 bilhões até 23 de abril. O fluxo reacendeu a demanda institucional, mas dados on-chain mostram realização de lucros perto da faixa de US$ 80 mil, que virou o principal teste do BTC no curto prazo.
Os ETFs spot de Bitcoin voltaram a atrair dinheiro em ritmo forte nos Estados Unidos, com oito pregões consecutivos de entradas líquidas e cerca de US$ 2,1 bilhões captados até 23 de abril, segundo dados compilados pela SoSoValue e citados pelo CoinDesk. A sequência ajudou o BTC a sair da região de US$ 68 mil para perto de US$ 77 mil, recolocando os institucionais no centro da recuperação.
O ponto de atenção é que a mesma demanda que sustenta a alta também pode estar oferecendo liquidez para investidores de curto prazo realizarem lucro. A Glassnode aponta que o Bitcoin recuperou a chamada “True Market Mean”, perto de US$ 78,1 mil, mas agora encara a base de custo dos holders de curto prazo em torno de US$ 80,1 mil — uma faixa que costuma concentrar venda de quem comprou nos últimos 155 dias.
IBIT lidera a volta dos fluxos para ETFs
No pregão de 23 de abril, os ETFs spot de Bitcoin receberam US$ 223,21 milhões em entradas líquidas. O IBIT, da BlackRock, respondeu por aproximadamente três quartos do fluxo, com US$ 167,49 milhões. Do outro lado, o FBTC, da Fidelity, foi o principal destaque negativo do dia, com saída de US$ 16,93 milhões.
O movimento reforça uma mudança de tom em relação às semanas anteriores, quando os produtos listados nos EUA vinham sofrendo com resgates e menor apetite por risco. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre ETFs de Bitcoin atraindo US$ 471 milhões em um dia, esses fluxos se tornaram uma das principais leituras para medir a força marginal da demanda institucional.
Desde o lançamento dos ETFs spot, as entradas líquidas acumuladas chegaram a cerca de US$ 58 bilhões, enquanto os ativos totais desses fundos alcançaram US$ 102 bilhões. Esse montante representa aproximadamente 6,5% do valor de mercado do Bitcoin, o que ajuda a explicar por que entradas ou saídas concentradas nesses veículos têm impacto direto no preço à vista.
Por que US$ 80 mil virou resistência crítica
O relatório “Week On-Chain”, da Glassnode, descreve a região de US$ 80,1 mil como o teto imediato do mercado. Esse nível representa a base média de aquisição dos compradores recentes. Quando o preço se aproxima dessa área, parte desses investidores deixa de estar no prejuízo e pode vender para sair no zero a zero ou realizar ganhos rápidos.
A leitura fica mais sensível porque a Glassnode estima que uma volta à zona de US$ 80 mil colocaria mais de 54% da oferta dos holders de curto prazo em lucro. Em ciclos anteriores, esse patamar coincidiu com pressão de distribuição e formação de topos locais, especialmente quando a demanda nova não foi suficiente para absorver a venda.
O lucro realizado por holders de curto prazo também acendeu um alerta. A métrica subiu para cerca de US$ 4,4 milhões por hora, quase três vezes acima da linha de US$ 1,5 milhão por hora que marcou topos locais ao longo do ano, segundo a Glassnode.
Demanda institucional contra venda de curto prazo
Na prática, o mercado está dividido entre dois vetores. De um lado, os ETFs voltaram a comprar e podem sustentar uma nova tentativa de rompimento. De outro, investidores que compraram entre US$ 60 mil e US$ 70 mil encontram agora uma janela para realizar lucro, limitando o avanço do preço.
Esse equilíbrio ajuda a contextualizar a sequência recente de notícias do mercado. O Bitcoin já havia perdido força perto de US$ 80 mil em meio a fatores macro, como mostramos em Bitcoin perde força perto de US$ 80 mil com alerta inflacionário. Depois, a melhora no apetite por risco e a volta dos fluxos institucionais recolocaram o ativo em recuperação, em linha com a leitura de que o Bitcoin mira seu melhor mês em um ano.
Para o investidor, a conclusão é menos sobre prever um rompimento imediato e mais sobre observar quem vence essa disputa: os ETFs, como compradores recorrentes, ou os holders de curto prazo, como vendedores naturais na resistência. Se o BTC conseguir se manter acima de US$ 80 mil com volume, a leitura melhora. Se falhar novamente, a região pode confirmar mais um topo local dentro da recuperação.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





