O Bitcoin perdeu fôlego na região dos US$ 80 mil depois que a alta do petróleo e dos juros voltou a pressionar o apetite por risco. Mesmo com entrada forte nos ETFs spot, analistas alertam que a alta recente ainda depende demais do mercado futuro.
O Bitcoin voltou a encontrar resistência perto dos US$ 80 mil nesta quinta-feira (23), em um movimento que expôs a fragilidade do rali recente. Depois de ganhar tração com a melhora do sentimento geopolítico no início da semana, a maior criptomoeda do mercado passou a enfrentar um novo obstáculo: o risco de inflação persistente, reforçado pela alta do petróleo e pela escalada dos rendimentos dos títulos públicos.
Segundo a CoinDesk, o pano de fundo macro piorou após um briefing do Pentágono a parlamentares dos Estados Unidos indicar que a remoção de minas no Estreito de Ormuz pode levar pelo menos seis meses quando o conflito com o Irã terminar. Na prática, o recado ao mercado é que os custos de energia podem seguir elevados por mais tempo, reduzindo a margem para cortes de juros pelo Federal Reserve e pesando sobre ativos de risco, como as criptomoedas.
Petróleo em alta e juros mais firmes travam o impulso
O petróleo WTI subiu para a faixa de US$ 95, ante cerca de US$ 79 no fim da semana passada, enquanto o rendimento do Treasury de 10 anos nos EUA avançou para 4,32%. Esse combo costuma endurecer as condições financeiras e reduzir a disposição dos investidores para aumentar exposição a ativos mais voláteis.
Esse contexto ajuda a explicar por que o Bitcoin ainda não conseguiu transformar o teste dos US$ 80 mil em rompimento sustentado. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre o momento em que o Bitcoin passou de US$ 78 mil com a trégua e compra da Strategy, o movimento de alta vinha sendo apoiado pela melhora do humor externo. Agora, parte desse suporte volta a ser colocada em dúvida.
Michael Kramer, fundador da Mott Capital Management, resumiu o problema ao afirmar que a combinação de petróleo em alta, juros pressionados e maior volatilidade aponta para um ambiente financeiro mais apertado. Para o mercado cripto, isso significa menos liquidez sobrando para sustentar apostas especulativas.
ETFs seguem fortes, mas mercado à vista ainda preocupa
Nem tudo no quadro atual é negativo. Os ETFs spot de Bitcoin listados nos Estados Unidos continuam registrando uma retomada consistente de fluxo, com a média móvel de sete dias das entradas líquidas atingindo o ritmo mais forte em um mês, de acordo com dados citados pela CoinDesk e pela Glassnode. Esse dado sugere que o interesse institucional segue vivo, mesmo com o ambiente macro mais instável.
Ainda assim, o sinal não é suficiente para encerrar o debate. Julio Moreno, chefe de pesquisa da CryptoQuant, afirmou no X que a alta recente do Bitcoin tem sido puxada principalmente pela demanda no mercado de futuros perpétuos, enquanto a demanda no mercado spot segue em contração, ainda que em ritmo menor. Em outras palavras, o preço sobe, mas com uma base menos sólida do que a sugerida por um rali sustentado por compra à vista.
Esse risco já apareceu em outros momentos de 2026. Em março, por exemplo, os ETFs de Bitcoin atraíram US$ 471 milhões em um dia, mostrando que fluxo institucional pode ajudar a estabilizar o mercado. Mesmo assim, quando o macro piora, a reação costuma ser rápida e o preço volta a sentir pressão.
O que observar nos próximos dias
Para o investidor, o nível de US$ 80 mil continua sendo a referência imediata. Um rompimento com suporte maior do mercado spot e continuidade nos fluxos dos ETFs pode reabrir espaço para uma extensão da alta. Sem isso, cresce a chance de realização de lucros, especialmente se o petróleo seguir pressionado e o mercado reduzir apostas em cortes de juros nos EUA.
O cenário também reforça a leitura de que o Bitcoin continua operando como um ativo extremamente sensível à liquidez global. Não por acaso, o CriptoBR já havia destacado que o Bitcoin resistiu ao risco no Irã mesmo com o petróleo a US$ 95, mas essa resiliência ainda não significa imunidade a uma deterioração macro mais prolongada.
Por enquanto, a fotografia do mercado é a de um ativo com força relativa melhor do que em semanas anteriores, mas ainda vulnerável a qualquer combinação de inflação resistente, energia cara e aperto nas condições financeiras. Para quem acompanha o curto prazo, a leitura é simples: o Bitcoin segue forte, mas o rompimento decisivo ainda precisa ser confirmado.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





